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30 de outubro de 2008

Espanto, revolta e o sonho de cidadania marcaram as reações de alunos do DF que assistiram à peça O que você tem a ver com a corrupção?, no Teatro Nacional Claudio Santoro
Pablo Rebello
Da equipe do Correio
A estudante Karine Quaresma, 11 anos, pensava que corrupção se resumia às falcatruas realizadas por políticos e pessoas de muito poder. Ela não pensava que essa palavra feia pudesse fazer parte do seu dia-a-dia. Só depois de assistir à peça O que você tem a ver com a corrupção? é que a menina percebeu a maldade nos pequenos atos que fazia para conseguir alguma vantagem. “Quem nunca mentiu ou furou uma fila? Já fiz isso, sem pensar que estava prejudicando alguém. Depois do que aprendi hoje, pretendo mudar meu comportamento”, contou.
Assim como Karine, aproximadamente mil alunos da rede pública e particular de ensino tiveram a oportunidade de assistir à mesma peça ontem no Teatro Nacional Claudio Santoro. O grupo Red de atores amadores, de Joinville — com texto do promotor catarinense Afonso Guiso —, apresentou para alunos do Ensino Básico a história de duas famílias completamente diferentes. Enquanto uma valorizava qualidades como honestidade e perseverança, a outra só pensava em modos de tirar vantagem de qualquer situação para se dar bem no final. Não demora para ficar claro os problemas provocados pela corrupção e o modo como ela atrapalha a vida das pessoas honestas e trabalhadoras.
A peça faz parte da campanha O que você tem a ver com a corrupção?, organizada pelo Ministério Público do Distrito Federal juntamente com o Tribunal de Contas do DF e do Tribunal de Justiça do DF. O evento espera despertar nas gerações mais jovens valores éticos e morais, além de provocar uma auto-reflexão na conduta diária das crianças. As lições contra as atitudes desonestas terão continuidade nas escolas. Hoje, serão entregues 620 kits com vídeos da campanha e cartilhas de esclarecimento sobre o exercício da cidadania e a necessidade de enfrentar o problema da desonestidade com atitudes como o combate às drogas e o acompanhamento das contas públicas.
Estrelas
“Queremos passar para eles um sentimento anticorrupção. Porque as atitudes que corrompem alguém começam em casa, com o pai que dá uma bala ao filho com o pedido que ele não conte algo para mãe ou com o menino que cola na prova da escola. Mostramos para eles que isso é errado”, detalhou o procurador-geral do DF, Leonardo Bandarra. “Incentivamos esses jovens a não praticarem atividades corruptas. A criança também tem um papel muito importante no controle da postura dos pais. Os ensinamentos que elas recebem acabam passados para eles também”, afirmou a juíza da 6ª Vara Criminal de Brasília Geilza Diniz.
Atores famosos de novela marcaram presença no evento e fizeram a meninada vibrar. Milton Gonçalves, que interpreta um político corrupto em A favorita, abraçou a campanha e procura orientar os jovens, assim como o artista Rafael Almeida, da Malhação. “Não podemos realizar uma mudança tão radical da noite para o dia. Mas temos como plantar uma idéia hoje para que gerações futuras possam colher os frutos do que fizemos”, defendeu Milton. “O jeitinho brasileiro tem que ser um jeito honesto. É isso que queremos mostrar para eles”, destacou Rafael.
Muitos alunos acreditam ter aprendido lições valiosas no evento de ontem. E prometem se tornar vigilantes para que os corruptos não tenham vez no futuro. “Se a gente não faz a nossa obrigação, não vamos ter o direito de cobrar os nossos direitos”, afirmou a estudante Geovana Pessoa, de 11 anos. Ela estuda no colégio particular Centro de Criatividade Infanto Juvenil, em Samambaia, e contou que a apresentação ficará marcada em sua memória. “Gostei muito e fazia tempo que não ia ao teatro. Acho isso legal. Gostaria de ver mais peças”, acrescentou.
A professora de geografia do Centro de Ensino Fundamental da 507 de Samambaia também elogiou o evento. Acostumada a passar valores e lições de cidadania para seus alunos, ela espera que outros professores adotem posturas semelhantes depois que as escolas receberem os kits da campanha. “Eu mesma irei repercutir o que vimos aqui com outras turmas que não tiveram oportunidade de vir”, prometeu. O estudante Jonata Teixeira Valério, 12 anos, pretende fazer o mesmo. “Vou ajudar meus pais, que podem conscientizar amigos e talvez até políticos”, concluiu.
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