Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios
Irmãos recomeçam a vida na França após uma bem-sucedida adoção internacional

Irmãos recomeçam a vida na França após uma bem-sucedida adoção internacional

por LC/SECOM/VIJ-DF — publicado 13/04/2015

A vida dos gêmeos Tiago* e Mara* (9) e do caçula Leandro* (8) nunca mais será a mesma. Protagonistas de um processo de adoção internacional bem-sucedido realizado em Brasília pela Comissão Distrital Judiciária de Adoção (CDJA) - órgão do Tribunal de Justiça do DF vinculado à Corregedoria da Justiça do DF -, os irmãos embarcaram em 1º de abril para a França com a esperança de redesenhar suas histórias de vida. Deixaram para trás desencontros, dificuldades, abandonos e violências e agora vão escrever os novos capítulos com a ajuda e o amor de seus novos pais, Michele* e Pierre*. Ela uma funcionária pública e ele um eletricista que trabalha com iluminação de espetáculos e eventos em geral na cidade onde moram, próximo a Lyon.

Lá, uma enorme família os aguarda. São avós, tios, primos, amigos, enfim, pessoas que vão fazer toda a diferença na adaptação e na nova vida deles. “Meu pai tem 10 irmãos e cada irmão tem quatro filhos. Venho de uma família numerosa e as crianças vão ter muitos primos para brincarem”, diz Michele. Até serem adotados pelo casal, os três ficaram por dois anos e nove meses na instituição de acolhimento Bezerra de Menezes, em Ceilândia (DF). Viveram nesses anos momentos difíceis, mas estão felizes por terem sido adotados e pelas novas possibilidades que se vislumbram. Para se adaptar à língua, fizeram por um mês aulas iintensivas de francês em renomada escola de línguas da cidade, tudo patrocinado por voluntários do Lar Bezerra de Menezes. Em pouco tempo de curso, já falavam expressões, números e cores e, com o estágio de convivência com os pais, o aprendizado foi intensificado e estão mais familiarizados com o idioma.

Como tudo começou

Michele não pôde ter filhos biológicos e, depois de algum tempo amadurecendo a ideia de adoção, decidiu com o marido Pierre pela adoção internacional. Inscreveram-se em vários organismos franceses que intermediam adoções internacionais e foram autorizados a adotar grupo de dois irmãos e depois, a pedido, tiveram a autorização ampliada para três.

Com a documentação reformulada, seguiram em frente e conseguiram iniciar o processo de adoção dos irmãos brasilienses e, com isso, participar das etapas da adoção internacional que pode durar até dez meses e inclui, entre outras coisas, a preparação das crianças por dez semanas (com o envio de relatório semanal das rotinas para os novos pais) e o estágio de convivência no Brasil, de no mínimo 30 dias.

Durante o estágio de convivência, o casal diz que percebeu diferenças culturais significativas, mas que isso não será empecilho para o sucesso da adoção. “Percebemos diferenças de comportamento entre as crianças do Brasil e as da França. As francesas são mais centradas, enquanto que as brasileiras são mais expansivas. A língua, no início, foi um fator de dificuldade, pois não conseguíamos nos expressar e nem nos fazer entender. Mas aos poucos vamos superar isso. A convivência com outras crianças francesas vai ajudar nesse processo”, afirmam.

Apesar de o distanciamento do Brasil ser inevitável, Michele diz que não quer que os filhos percam o contato com as pessoas e com a cultura brasileira. “Não quero que eles percam o vínculo com as crianças da entidade de acolhimento que viveram por tantos anos. Espero manter contato com elas e com os amigos brasileiros. Isso vai ser importante para a manutenção da identidade e das origens das crianças”, diz. Catherine também achou muito importante o tempo em que permaneceu no Brasil. “Quando disseram na França que passaríamos dois meses no Brasil, achei muito tempo. Mas hoje entendo que esse período é necessário para criar vínculos e fazer a adaptação”, diz.

O primeiro encontro

Como toda mulher que tem forte instinto maternal, o primeiro encontro pessoal com os três aconteceu no dia 12 de fevereiro de 2015 e foi muito emocionante. “Quando os vi pela primeira vez, tive uma sensação física forte como se estivesse dando à luz. Arrepiei-me e os meus olhos não conseguiram conter a emoção. Mas também tive medo”, confessa Michele. Esse belo momento aconteceu em um restaurante no Setor de Clubes Sul, em Brasília, e durou cerca de três horas. As crianças interagiram bem, de forma espontânea e em clima de descontração. Já naquele momento saíram dali sendo chamados de mamãe e papai.

Tentativa frustrada

Antes de adotar os três irmãos, o casal vivenciou uma tentativa frustrada de adoção de um outro grupo de três irmãos fora da capital. Como só tinham documentação e autorização para adotar duas crianças, perderam a chance para outro casal. Seguiram em frente e providenciaram os papéis que os autorizaria a adotar um número maior de filhos e logo depois apareceu esse belo grupo em Brasília.

Menu e povo brasileiro

O casal diz que a convivência no Brasil incluiu adaptar-se também às comidas brasileiras. Muito diferente do que costumam comer na França, provaram de tudo um pouco: de pão de queijo à feijoada, de brigadeiro à farofa, tudo fez parte do menu durante o período. “Provado e aprovado. Ainda mais que as crianças gostam muito desses pratos”, confidencia.

Outra observação feita pelo casal foi a generosidade do povo brasileiro. Eles tiveram apoio de voluntários para as rotinas do dia a dia, como transporte, e também para rotinas domésticas. “Vimos o quanto os brasileiros são generosos. Nossos vizinhos se tornaram nossos amigos. Nos ajudavam em tudo o que precisávamos”, afirma.

Os preparativos

Entre os preparativos para receber as crianças na França, está a construção de uma piscina na casa da família. O próprio pai Pierre construiu tudo como forma de demonstrar o quanto desejava esses filhos. Esse fato, inclusive, foi contado aos três durante as sessões de preparação das crianças com a equipe da CDJA. “Decidimos narrar esse fato para mostrar o quanto eram desejadas pelos novos pais. As crianças, de fato, se sentiram importantes. Foi uma boa estratégia para criar laços”, diz a Secretária Executiva da CDJA, Thaís Botelho.“Todo o processo de adoção (que inclui metodologia da preparação, relatórios e estágio de convivência) durou cerca de cinco meses”, relata Thaís.

O casal diz que tudo que sabiam sobre os meninos vinha dos relatórios da CDJA enviados a eles semanalmente, três meses antes do início do estágio de convivência. Sabiam, por exemplo, que eram crianças negras, inteligentes e comunicativas. Perto da ida para o Brasil, receberam fotos dos meninos e encaminharam um vídeo apresentando a casa e a construção da piscina. Nas filmagens, aparecia um porta retrato com foto das crianças. “Os relatórios foram uma boa oportunidade para conhecermos um pouco da personalidade e da história deles”, relatou. Além da piscina, o casal também se preparou fazendo curso de português. “O curso utilizava um método baseado na conversação, mas achamos lento para o tempo que precisávamos. O que aprendemos foi com a convivência no Brasil mesmo”, explica. Eles também foram preparados pelo COFA-Cognac, organismo internacional que intermedia adoções internacionais.

Vida que segue

A rotina das crianças na França vai incluir aulas de francês de imediato, frequência na escola do ensino regular, atividades físicas e muito, mas muito amor e limite. Além disso, pretendem, sempre que possível, viajar com os três para desbravar novos lugares. “As crianças estão muito felizes, mas um pouco ansiosas também. Isso é normal e faz parte do processo”, relata a mãe. Ela diz que todos incorporaram o sobrenome da família.

Após a chegada das crianças na França, será feito um acompanhamento pós-adotivo da família, por dois anos, por meio de relatórios psicossociais, que deverão ser enviados semestralmente pelo COFA-Cognac à CDJA no Brasil. Tudo de acordo com o que prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente, no art. 52, § 4º, V.

A volta para casa aconteceu em 1º de abril, considerado dia da mentira no Brasil e na França. Mas segundo a matriarca, essa não é uma história de mentirinha. Pelo contrário, é uma história de verdade, baseada no recomeço, na parceria e no amor. E pelos inúmeros olhares, abraços e sorrisos trocados entre eles na VIJ/DF, no dia anterior à partida, é bem provável que essa família tenha uma vida feliz, pois é nítido o amor e a luz contagiantes que circulam entre eles.

* Nomes fictícios a fim de preservar a intimidade da família.

Números adoções Internacionais
2015 3
2014 8
2000 a 2015 29
Crianças/adolescentes cadastrados para adoção internacional 70