Jovem acolhido é contemplado com notebook em ação da VIJ-DF

O computador portátil vai auxiliar o adolescente assistido pelo programa de voluntariado da VIJ/DF nos estudos e na busca de novos conhecimentos
por LC/SECOM/VIJ-DF — publicado 2018-04-11T18:50:00-03:00

Menino notebook 2

A intensa chuva que caiu na Vara da Infância e da Juventude do DF – VIJ/DF, na Asa Norte, na tarde da última sexta-feira, 6/4, não apagou o brilho de um encontro que aconteceu por lá para celebrar a entrega de um notebook para um jovem assistido pela Rede Solidária Anjos do Amanhã (RSAA), programa de voluntariado da VIJ/DF.  

Guilherme Augusto Silva foi contemplado com um computador portátil por ter se destacado na seleção educativa promovida pela RSAA entre adolescentes que usufruem de recursos da Rede Solidária nas áreas de capacitação e profissionalização. O concurso incluiu a frequência regular na escola e bons rendimentos nos estudos; a participação no Fórum Mundial da Água e a elaboração de um texto com o tema: “Por que eu, estudante, mereço ganhar um notebook”.   

Participaram da seleção 30 adolescentes, e Guilherme sagrou-se vencedor porque cumpriu todos os critérios exigidos na ação e foi escolhido pela soma de pontos, incluindo a avaliação do texto por equipe multidisciplinar do Anjos do Amanhã. 

Adriana Bretas, servidora da Rede Solidária e idealizadora do concurso, diz que essa ação educativa, de viés não assistencialista, deverá ser repetida oportunamente e que todos os jovens acompanhados pelo Programa são capazes de vencer, assim como Guilherme. “Todos os meninos e meninas acompanhados pela Rede Solidária nas áreas de capacitação e profissionalização têm potencial para chegar lá. Basta seguir as regras e melhorar seus desempenhos”, sustenta a servidora, afirmando que o notebook recebido pelo jovem foi gentilmente doado à Rede Solidária por um estudante da UnB.  

Com o computador, Guilherme pretende aperfeiçoar a escrita (disse que vai escrever muito mais), expandir suas habilidades, inclusive as de informática, e criar um mundo de leitura para ele. “Esse notebook me ajudará a praticar o que sei em informática e a adquirir novos saberes que ainda não tenho, tornando-me mais atualizado daquilo que pouco sei”, prevê. 

Para Adriana da RSAA, a ferramenta também permitirá ao adolescente buscar capacitações e cursos on line e se informar com frequência sobre editais, seleções e concursos, aumentando, assim, suas chances de novos trabalhos.  

Indagado sobre as dificuldades que teve para elaborar a redação, Guilherme disse que nenhuma, pois há tempos queria se expressar, e escrever foi uma grande oportunidade para isso. “Quando vi que tinha que fazer uma redação, fiquei empolgado. Estava passando por situações na minha vida e queria me expressar, colocar tudo para fora. Também gostei muito de participar do Fórum Mundial da Água. Isso ampliou minha visão de mundo”, sustenta.

Contrapartida 

A grande lição que ficou para a Rede Solidária nessa ação, segundo Adriana Bretas, foi que o Programa está no caminho certo ao exigir uma resposta construtiva dos beneficiários, em prol deles próprios. Segundo ela, é importante ensinar as pessoas a pescarem e não a dar o peixe apenas. “Engajamento e contrapartida foram os itens indispensáveis para que Guilherme conquistasse o computador. Na vida, nada vem de graça. Temos que despender muita energia se quisermos ter alguma coisa”, afirma Adriana. 

Bretas também revela que a RSAA tem a intenção de promover novas seleções educativas para o seu público e que todos os jovens em risco social acompanhados pelo Programa têm potencial para participar e vencer. “A partir dessa ação, queremos promover uma mudança de paradigmas na Rede do modelo assistencialista para o modelo de construção e conquista de metas”, finaliza.  

A redação 

Guilherme fez um texto narrativo profundo, abordando não só o desejo pelo prêmio mas também a sua trajetória de vida repleta de dificuldades e de superação. Ele abre a redação definindo-se como um sonhador, um jovem que gosta de realizar sonhos. “Sou uma pessoa que adora sonhar, e melhor do que sonhar é poder realizar os próprios sonhos”, diz. 

Em outro trecho do texto, o estudante mostra a dura realidade pela qual passou nos seus 16 anos: morou na rua, foi abandonado quando criança e sofreu diversas violações de direitos.  “Essa história não é mais uma qualquer, porém é a minha história. Talvez não seja fácil ler essa narrativa, mas acredite: é mais difícil escrevê-la. São marcas da minha história, do que sou. Eu não as levo como fardo, e sim como motivo de superação”, desabafa.  

O jovem também fala da angústia por não ter conhecido a mãe biológica. “Nunca soube quem foi minha mãe biológica, meu primeiro incômodo. Talvez eu nunca saiba quem foi ela, meu segundo incômodo. E o que ela queria para o meu futuro”, revela. Apesar de todas as dificuldades vividas, Guilherme busca dentro de si as respostas para aliviar suas tristezas. “Aos 9 anos de idade ainda me perguntava sobre meu passado, minha família. Até que um dia, uma pessoa me disse o que eu não queria ouvir: "As perguntas que você tanto se faz, só você mesmo é capaz de respondê-las”, afirmou o jovem reflexivo em seu texto. 

Para o futuro, o estudante vislumbra dias prósperos com muita luta, estudos e protagonismo. “Eu terei que abrir portas para construir o que tanto quero, e isso será possível apenas com os estudos. Eu não tenho família, mas tenho a oportunidade de estudar. Por meio dessa oportunidade, eu terei aquilo o que tanto me perguntava quando criança. O que me faz falta, um dia, não fará mais”, assegura na sua redação. 

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Um pouco sobre o Guilherme 

Guilherme Augusto Silva foi acolhido institucionalmente aos três anos de idade, juntamente com outros dois irmãos, gêmeos, que já não estão mais no serviço de acolhimento do DF desde o ano passado, pois atingiram a maioridade. Hoje, aos 16 anos, o estudante diz ter pouco contato com os irmãos, mas guarda muito carinho por eles. 

Com notória habilidade para se expressar, Guilherme fala com desenvoltura sobre estudos, engajamento, redes sociais, sonhos, metas e violação de direitos. Profissionalmente, ele dá os primeiros passos na carreira. Desde agosto do ano passado, trabalha como Menor Aprendiz, na área administrativa, em uma creche na Asa Norte.   

Na vida acadêmica, ele também deslancha. Nas próximas semanas, o jovem deve ingressar no Ensino Médio, pois acabou de ser aprovado no Encceja – Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos, destinado a pessoas que não conseguiram completar seus estudos na idade própria, e aguarda apenas a confirmação da matrícula para avançar nos estudos. Entre 40 alunos que fizeram o Encceja com ele, Guilherme foi o único selecionado.  

Apesar de no momento atuar na área da educação, seu grande sonho para o futuro é cursar Direito e trabalhar ativamente para proteger crianças e adolescentes que, assim como ele, tiveram seus direitos violados. A escolha pelo curso vem da sua própria história de vida marcada por desafios e superação. “Desde criança moro em abrigos. Se fui para lá é porque tive meus direitos violados. Ouvi sempre as pessoas falarem do Estatuto da Criança e da Adolescente (ECA), instrumento que deveria proteger os menores de 18 anos de todas as formas de abusos, violências e discriminação. Mas, eu me pergunto: “Se o ECA existe, por que ainda tantos meninos e meninas vivem graves violações? Foi fazendo essas indagações que comecei a me interessar por leis e a querer saber como as normas podem proteger os cidadãos, garantindo-lhes direitos e deveres”, afirma. 

Apesar dos temas densos que costuma lidar, o estudante também se diverte sendo blogueiro nas horas vagas. Ele dedica uma pequena parte do seu dia a posts no Instagran e no Facebook para a alegria dos cerca de 1,2 mil seguidores. Como as prioridades são estudar e trabalhar, ele diz que o tempo dedicado às redes sociais é escasso. “A realidade bate à minha porta todos os dias. Procuro sempre focar nos estudos, mas quando o meu público cai, descubro novos conteúdos interessantes para colocar na rede e atrair mais seguidores”, confessa, destacando que recentemente mostrou, em tempo real e com bom humor, a sua via-sacra para voltar do oftalmologista de ônibus e com as pupilas dilatadas. 

Além da realidade da medida de de acolhimento, dos estudos, do trabalho e das redes sociais, o jovem costuma traçar metas para si, todos os anos, como forma de alcançar seus objetivos. Neste ano, ele comemora a realização de cinco das 25 metas que projetou para 2018, entre elas, finalizar o Ensino Fundamental e iniciar o Médio; viajar e conseguir um novo notebook. “Tudo veio com esforço. Estou feliz pelas conquistas até agora”, comemora.

Outro sonho que consta na sua lista há anos é o de ser adotado. Todas as vezes que presencia a adoção de crianças e adolescentes fica muito feliz, e o desejo de ter o mesmo destino só aumenta. “A gente se emociona ao ver uma criança ou adolescente indo embora com a sua nova família. Recentemente, eu presenciei a adoção de uma criança com Síndrome de Down por duas mulheres de São Paulo. Foi muito lindo. Vi que ali tinha amor; muito amor. O amor quebra as barreiras do preconceito", revela.

“Essas situações me marcam e gostaria de um dia ter uma família também, mesmo consciente de que a adoção tardia é muito difícil”, desabafa o jovem que já viveu uma adoção frustrada.  

Apesar de desejar a adoção, ele põe os pés no chão e se prepara todos os dias para a realidade nua e crua que se avizinha. Aos 18 anos, terá que deixar o serviço de acolhimento e seguir a vida com as próprias pernas. Consciente dessa situação, ele tenta se qualificar para conseguir uma estabilidade financeira e minimizar as dificuldades desse momento. “No serviço de acolhimento a gente conhece a expressão ra, re, ri, ro, rua quando completa os 18 anos. Quero me preparar bem para fazer essa transição com tranquilidade. Vou conseguir", finaliza. 

Para ajudar nessa transição, a Rede Solidária Anjos do Amanhã procura, na medida do possível, preparar esses jovens com conversas, capacitações e alguns utensílios do lar. Guilherme faz, por intermédio da RSAA, curso de inglês na Casa Thomas Jefferson e psicoterapias para entender melhor a sua trajetória.  

Parabéns, Guilherme! Sua história inspira pessoas.