Mães do Fórum da Infância contam como está a quarentena com crianças em casa
No último domingo (10), celebramos o Dia da Mães. Em tempos de quarentena, as comemorações foram adaptadas para respeitar o distanciamento social e protegê-las. Mas mãe é mãe todo dia e elas têm tido esse dia a dia bem diferente em tempos de coronavírus. Conversamos com três mães servidoras do Fórum da Infância e da Juventude sobre desafios, conquistas e estratégias para esse período.
Ser criativo é preciso
“Estamos com a sensação de que o tempo passa mais devagar, de que não há mais urgência de realizar tantas tarefas em um único dia. Parece que conseguimos ter mais tempo para curtir as coisas mais simples da vida ao lado das crianças”, relata Valéria Souza, servidora da Vara de Execução de Medidas Socioeducativas (VEMSE) e mãe da Isabella, de 7 anos, e do Eric, de 6.
Ela conta que, com o distanciamento social, eles passaram a fazer mais atividades juntos, de brincadeiras à participação das crianças na organização da casa. “As conversas são longas, participamos mais ativamente das brincadeiras e eles têm curtido muito este contato constante que a rotina normal costumava limitar”, fala Valéria.
Os bons momentos somam-se a desafios. “Não tem sido fácil, pois as crianças têm muita energia e nem sempre há espaço suficiente para algumas brincadeiras dentro de casa. Eles sentem falta das aulas de futebol e também do playground”, compartilha ela.
Ao conversar com os filhos sobre a Covid-19, Valéria conta que, a princípio, eles ficaram confusos e um pouco assustados. “Não entendiam por que não podíamos visitar os avós e tios, mas, com o tempo, uma nova rotina foi estabelecida, e eles encontraram alegria em atividades que antes não tinham sido exploradas”, comenta.
O início do teletrabalho também exigiu maior esforço. ”No começo isso também foi difícil, pois as crianças ainda estavam em ritmo acelerado, sem saber o que fazer com tanto tempo livre”, explica. “Depois da primeira semana, começaram a entender que eu tinha o horário de trabalhar e que o resto do dia estaria disponível pra eles. Se eles não conseguissem colaborar, iria demorar um pouco mais para começar o nosso tempo livre juntos”, completa. Aos poucos, Valéria conta que os filhos conquistaram mais autonomia e passaram a fazer as atividades sem demandar tanta ajuda.
Para gerir o entretenimento diário, a imaginação tem sido grande aliada: “Temos usado bastante a criatividade pra contornar as limitações do isolamento. Já fizemos guerra de balão de água na varanda, pintura de rosto, concurso de desenho, jogamos videogame, fizemos um bolo – que não deu muito certo”.
Compartilhar momentos
“Todo mundo entrou nessa quarentena de surpresa. Foi um esforço de adaptação. Ainda assim, aqui em casa, foi tomado de muita união, otimismo, de muita colaboração”, relata Bárbara Macêdo, da Seção de Assessoramento Técnico da VEMSE (SEAT).
Na primeira fase da quarentena, ela desenvolveu com a filha, Ananda, de 6 anos, a série de vídeos "Ananda ensina", no espírito de manter a força, a alegria e o ambiente harmonioso. Com direito a trailer para a série, vinheta e tudo mais, os vídeos trouxeram dicas de diversão, receitas disponíveis. A ideia veio da própria Ananda, que queria ensinar coisas aos amigos. "A rotina de vídeos foi reduzida por conta da adaptação da Ananda às aulas virtuais e às novas exigências da quarentena", aponta Bárbara.
As semanas que seguiram às iniciais do distanciamento social foram as mais desafiantes. “Era a demanda de casa, de cozinhar, de cuidar de uma criança e de nós mesmos, de trabalhar. Intensificaram-se as atividades escolares, que realmente nos estressaram e nos deixaram exauridos”, compartilha ela. Os desafios foram
estendidos à Ananda: “Não foi fácil para ela ficar com videoaula. No início, foi angustiante para nós e para ela. Eu achei até inadequado no primeiro momento".
Mesmo com os desafios do modelo de ensino, após a adaptação, Bárbara conta que a escola tem sido um elemento fundamental para dar previsibilidade à vida de Ananda: “Tem sido muito importante ver os amigos, a professora. As aulas e atividades têm sido prazerosas, desenvolvendo melhor as habilidades. O maior desafio é conciliar esse novo papel de professor dos filhos, se adaptar e reinventar no teletrabalho, aprender fazendo, isso foi muito desafiador”.
Além dos desafios domésticos, Bárbara lembra outros que vieram da própria situação compartilhada por todos. “Depois do primeiro mês, um outro contexto influenciou muito nossa família. Uma certa tristeza e incerteza de como a crise tem sido gerenciada. Isso me levou a um quadro de adoecimento, de mal-estar”, declara ela. O fato coincidiu com o avanço da disseminação da doença na região Norte do país, de onde ela e sua família são. “É um sentimento de impotência. Estamos longe, parte da família está numa região tão afetada. As últimas semanas foram de desafios. Estamos num momento de oração, aceitação e resiliência”, explica. Para Bárbara, o momento exige ajuda, tolerância e menos problematização: “Ou fazemos um pacto pela harmonia e boa convivência em casa, ou fica tudo muito mais difícil do que já é”.
Ioga para conectar a família
“Acredito que é possível encontrar um lado bom nos desafios da vida, e na ocorrência da pandemia da Covid-19 não é diferente”, defende Karin Calazans, da Coordenadoria da Infância e da Juventude (CIJ). No entanto, refazer a rotina no ambiente doméstico para conciliar trabalho e vida privada no mesmo lugar não foi uma tarefa tão fácil. “Confesso que, nas duas primeiras semanas, a minha casa parecia um local pouco apropriado para trabalhar e lidar com todas as necessidades de cada membro da família em sua singularidade”, diz ela.
Mãe da Isabel, de 6 anos, ela relata o desafio de conciliar as atividades. “É preciso cumprir com as obrigações profissionais, cozinhar, lavar as louças, arrumar a casa, fazer faxina, aconchegar uma criança de 6 anos, encontrar
atividades condizentes com a infância criativa e cheia de energia, fazer as compras para poupar a saída de uma mãe idosa, administrar as notícias de como o vírus está espalhado pelo mundo, lidar com meus próprios medos e as responsabilidades", resume Karin.
O tempo em casa, no entanto, foi propício para resgatar o cultivo de minutos diários dedicados à meditação e à prática de ioga. Os momentos ganharam uma companhia importante: “Aproveitei para convidar minha filha a fazer a prática diária de ioga e, com alguma relutância, ela aceitou”.
Karin conta que Isabel estava fazendo outras formas de tratamento de saúde, descontinuadas com a pandemia. “A ioga se tornou a opção de cuidado integral que tínhamos à disposição. Para ela, escolhi seguir uma série de um livro muito precioso do professor B. K. S Iyengar (The path to holistic health) voltado para a cura de questões de saúde”, explica a servidora. Além de se conectar à filha por meio da prática, ela também agregou a mãe: “A ioga se tornou uma de nossas fontes de conexão familiar durante o isolamento. Ainda é cedo para falar de progressos efetivos, mas estamos dedicadas à nossa prática de uma hora diária”.
Para ela, o isolamento social tem propiciado a vivência de um evento estimado pelos praticantes de meditação: o retiro. “Retirar-se da vida cotidiana a fim de ter mais tempo para prestar atenção ao que há na mente e no mundo interior, refletir sobre a preciosidade da vida humana, perceber a transitoriedade das emoções e dos sentimentos, lembrar da constante transformação de tudo que existe no mundo, da nossa falta de controle sobre os fenômenos”, completa Karin.
Fica a dica das servidoras
Para quem quiser se enveredar por novos caminhos de autoconhecimento, como a meditação, Karin Calazans recomenda os aplicativos de celular Insight Time e lojong. Em ambos há um timer para medir o tempo de meditação e opções de meditações guiadas. “Quando se opta pelo timer, pode-se começar com apenas um minuto diário. Basta encontrar um local onde se possa sentar de forma confortável para manter a coluna ereta. Quando possível, melhor não ter outros barulhos, como rádio e televisão, nos arredores”, sugere a servidora da CIJ.
Quanto à ioga, além dos dois vídeos no canal oficial do TJDFT no YouTube, Karin indica canais para iniciantes com práticas leves e seguras para serem feitas sem professor. Elas são mais voltadas ao alongamento e ao cultivo da respiração consciente como formas de energizar o corpo, acalmar a mente, aumentar a disposição e sensação de bem-estar. Ela recomenda os canais Fernanda Yoga – há um vídeo de 34 min chamado Yoga para Iniciantes muito apropriado – e Yoga Mudra – com vários vídeos de no máximo 15 minutos que cumprem sua missão.
Já Bárbara Macêdo divide com todos algumas dicas que têm dado certo em casa com a filha:
1. Rotina - é superimportante ter um mínimo de rotina, mas a flexibilidade é muito bem-vinda. Foi muito divertido montar essa “nossa rotina” juntos. É perfeito, sai tudo certo sempre? Não. Mas melhorou muito.
2. Cardápio da semana - isso diminuiu muito os conflitos que surgiam em torno do tema alimentação. São pratos mais simples e únicos, mas fiquei bem surpresa com os efeitos de algo que achava totalmente sem necessidade.
3. Rezar e contar histórias da infância antes de dormir - ela ama saber o que fazíamos quando éramos crianças. Conto sobre as bisavós, minhas avós, que foram mulheres tão especiais, tão presentes na minha infância.
4. Sinais importantes - criamos senhas simples entre nós, como:
- stop/pare/tempo: usamos aquele gesto simples com as mãos do jogo de vôlei. Quando a coisa esquenta, se uma de nós está irritada ou fazendo algo que desagrade, usamos esse sinal;
- coração de dedos: se queremos abraço, cheiro e beijo.
5. Um cantinho de leitura - fiz um cantinho na sala e o resultado foi excelente. Ela está curtindo mais os livros. Às vezes quando acordo, ela já está lá “lendo alguma coisa”.