A CRISE NA CRISE: DESAFIO OU OPORTUNIDADE?

Apesar da positividade e do otimismo serem fatores extremamente importantes para se enfrentar a crise pandêmica que estamos vivendo, nem sempre o discurso “Pollyanna” ajuda. Pelo contrário, faz com que muitos se sintam culpados por não estarem conseguindo administrar, de maneira eficaz, tudo que surgiu, de uma hora para outra, em suas vidas.
por pro vida — publicado 2020-04-01T16:44:38-03:00

Diante da crise pandêmica que estamos vivendo com o COVID-19 e da orientação de fazermos quarentena e permanecermos dentro de casa, tem surgido uma enxurrada de textos e mensagens bombardeando as redes sociais. Muitos deles evocam as pessoas a encararem esse momento como oportunidade de desaceleração, de se aproximar mais dfamília, dos filhosaproveitar para usar o tempo, agora “mais disponível”, para fazer o que nunca dá tempo; sugerindo inclusive momentos lúdicos e de relaxamento. 

Contudo, apesar da positividade e do otimismo serem fatores extremamente importantes para se enfrentar as mais diversas situações na vida, nem sempre esse discurso Pollyanna ajuda. Pelo contrário, faz com que muitos se mantenham em posturas pouco produtivas ou adaptativas, mobilizando em alguns culpa por não estarem conseguindo, por exemplo, sentar-se para brincar a tarde inteira com seus filhos, dando gargalhadas, em meio a muitos beijos e abraços. Ou também por não estarem conseguindo administrar, de maneira eficaz, tudo que surgiu, de uma hora para outra, em suas vidas. A realidade nos veio “goela abaixo”.  

Esse momento de quarentena e isolamento ao qual estamos vivendo, pode ser descrito e analisado à luz da teoria da médica Elisabeth Kübler-Ross, em que ela descreve em seu livro “Sobre a morte e o morrer” os estágios que uma pessoa vivencia no luto. De certa forma, o que estamos vivendo é uma quebra abrupta e repentina de um estilo de vida, de uma rotina e modo de funcionar no mundo, ainda que provisório, e não deixa de ser, em certa medida, um luto. Luto de não poder seguir a vida normalmente, luto pela perda da liberdade, luto por não poder encontrar e abraçar os pais idosos, entre tantos outros na esfera individual de cada um. 

Kübler-Ross, aponta 5 estágios pelo quais passamos quando vivenciamos situações de luto (aqui estendido para perdas): negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. 

Quando aqui no DF, há 2 semanas, o Governador suspendeu as aulas em toda a rede de ensino pública e privada, muitos argumentaram indignados que era um exagero, uma irresponsabilidade e que estava havendo uma histeria coletiva. Sim, isso é a fase inicial, a negação. Por vezes, é muito difícil enxergar a dura e penosa realidade, aceitar a notícia como verdadeira. Sim, o COVID-19 está aí, é grave e todos estamos envolvidos nessa luta de combate à pandemia. 

Pensar, nesse momento, no que estamos vivendo no Brasil, particularmente no DF, como uma oportunidade (de passar mais temo com quem amamos, em colocar em dia séries do Netflix que não tínhamos tempo de assistir ou então arrumar aquele armário bagunçado) é também uma forma de negação.  

É verdade que o pensamento otimista ajuda no enfrentamento, mas quando se vive uma situação que demanda mudanças rápidas, interferindo na rotina, nos costumes e, especialmente nas relações e no modo de viver das pessoas, não se pode negar que isso impacta enormemente nas emoções e na subjetividade. 

E aí é quando Kübler-Ross descreve o segundo estágio do processo de luto/perda: a raiva. Raiva da situação, busca por culpados, brigas e estresses. Nesse momento, é quando prevalecem os medos, as preocupações e muita ansiedade. 

Eu posso estar convivendo mais perto do meu marido ou esposados meus filhos, ou eu posso estar sozinho no meu isolamento, mas eu não posso ver meus pais, que são idosos, confraternizar com meus amigos, sair para o trabalhopassear ou viajar. Eu não posso, ainda que temporariamente! E isso me demanda raiva, frustração, decepção de ter que cancelar aquela viagem tão esperada e planejada. Sim, é decepcionante! 

Então, enquanto estamos tentando lidar com essa enxurrada de emoções negativas e angustiantes, vem outra enxurrada de “cobranças” digitais dizendo que essa é a oportunidade de sermos uma família perfeita. Ou mensagens dizendo que “tudo vai dar certo”, de promessas e negociações. Essa é a fase da barganha.  

NÃO, NÂO TEMOS QUE SER PERFEITOS! Com tudo isso acontecendo, temos de uma hora para outra virar professores dos nossos filhos, donos de casa que sabem cozinhar, lavar, passar, limpar a casa e passar álcool gel em tudo 24horas, trabalhar de uma hora para outra em home office, mesmo aqueles que não tem perfil para essa modalidade de trabalho, ficar isolados dos nossos amigos e familiares, intervir nas brigas dos filhos que estão entediados dentro de casa, dar conta de um vendaval de mensagens e ainda dar conta de nós mesmos, dos nossos medos, angústias e ansiedades! 

Nesse momento, precisamos assumir que está difícil mesmo, que estamos cansados, com raiva, tristes, ansiosos e comendo chocolate mais do que deveríamos. Que a angústia, a ansiedade, o medo e preocupações estão presentes. E que NÃO, NÃO ESTÁ TUDO BEM! Podemos ficar tristes com tudo isso.  

Assumindo nossos sentimentos e validando-os para nós mesmos e para os que estão junto de nós, dividindo e compartilhando medos, preocupações, ansiedades e tédios, estaremos proporcionando muito para nós mesmos e para as pessoas ao nosso redor, ajudando-os a também olharem para dentro de si, a identificarem e reconhecerem suas emoções, a perceberem que a vida nem sempre é um mar de rosas e que nem sempre “tudo dá certo”. 

E é nesse momento, quando validamos nossa tristeza, podemos juntos encontrar soluções e alternativas, para então viver com esperança e otimismo uma nova realidade ou situação; encarando a crise não somente enquanto dificuldades e desafios, mas como oportunidades de crescimento e amadurecimento, como pessoas, como famílias e como sociedades. 

O COVID-19 está aí, o mundo está caótico, perplexo, apavorado. Vamos juntos viver o luto de uma realidade que não mais será a mesma. Vamos refletir com aceitação e resiliência novos recursos de enfrentamento para viver uma vida que de uma hora para outra nos impõe um múltiplo e complexo modo novo de viver!  

                               Karina Gil  (Psicóloga do Núcleo Psicossocial Institucional do TJDFT)