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Aplicativos para o sono: ajudam ou atrapalham?

Aplicativos para o sono: ajudam ou atrapalham?

O uso de aplicativos em smartphones e tablets é um fenômeno mundial e, seguindo essa tendência, o mercado de apps de saúde tem ganhado destaque. Diante da elevada prevalência de pessoas que sofrem com sono de má qualidade a indústria de aplicativos que alia entretenimento com cuidados do sono é crescente.

por Pró-Vida — publicado 12/03/2019

Não é raro que o médico que trabalha com distúrbios de sono, tenha se deparado cada vez mais em seus consultórios com pacientes sugestionados e, por vezes, ansiosos com as informações coletadas por seus smartphones.

Esses aplicativos estão disponíveis nas lojas virtuais e a maioria se utiliza de toda a tecnologia embutida nos smartphones para cumprir suas funções. Alguns vão além e oferecem recursos adicionais, como pulseiras e sensores externos para aumentar a quantidade de informações coletadas. Não existe um aplicativo completo, mas a internet das coisas disponibiliza uma infinidade de recursos aos consumidores, desde diários eletrônicos de sono, despertadores para acordá-los na fase mais apropriada do sono, auxiliares no tratamento da insônia, monitores de ronco e até mesmo alguns rastreadores para apneia obstrutiva do sono.

É inegável a praticidade com que o próprio smartphone possa monitorar e auxiliar seu usuário no controle de um distúrbio do sono, ou, por exemplo, acompanhar os efeitos de uma terapia, disponibilizando estas informações de forma amigável, a baixo custo e em tempo real. O uso destas tecnologias auxilia também o doente se atentar de que pode ter alguma doença do sono e incentiva-o a procurar assistência médica. Cabe, no entanto, a interpretação crítica desta informação, tendo em mente que nenhum destes recursos tem valor de forma isolada e não podem substituir a anamnese e exame físico dos profissionais especializados, nem os dados gerados por reconhecidos exames para a monitorização do sono, como a polissonografia, actigrafia e teste de múltiplas latências do sono.
Até o momento não existem estudos que permitam equiparar os relatórios emitidos por um aplicativo aos de uma polissonografia. Alguns apps têm sido mais estudados para auxiliar no controle de ciclo sono-vigília, como é o caso, por exemplo do Early Sense que dispõe de um sensor externo para medida de frequência cardíaca, frequência respiratória e movimentos corporais. Este aplicativo atinge um nível de 92,5% de acurácia para detecção de sono ou vigília, equiparando-se à actigrafia. No entanto este aplicativo e outros, não conseguiram oferecer dados confiáveis para detectar uma patologia.
Um ponto importante destes dispositivos é o algoritmo e a forma como os dados são apresentados. Os algoritmos desenhados para detecção de todos os parâmetros são mantidos sob custódia de seus desenvolvedores e, portanto, não é possível ter certeza de como aquele dado foi gerado. Seria necessária também a padronização de dados de forma que os relatórios pudessem ser comparados entre um aparelho e outro. Muitos aplicativos fornecem dados em escalas visuais, sem dados objetivos, o que é peculiar de um aplicativo voltado ao entretenimento e não de um exame diagnóstico.
Alguns estudos têm mostrado que muitos desses aplicativos podem superestimar dados de sono e gerar resultados falso-positivos, causando ansiedade e preocupação para o paciente e um desafio maior para a equipe médica. Da mesma forma, alguns aplicativos podem subestimar uma patologia retardando um diagnóstico. Diante disso, a Academia Americana de Sono lançou uma diretriz na qual destaca a necessidade de estudos experimentais e aprofundados, padronizando os dados e validando a informação gerada de forma consistente para o uso seguro desta informação e reforça, que até o momento, não há liberação para nenhum uso destes recursos na prática do especialista do sono.
É inegável que o profissional do sono esteja a par dos principais apps disponíveis nas lojas virtuais, dado que a os pacientes cada vez mais o procurarão sugestionados por tais dispositivos. Certamente esta tecnologia é bastante promissora, mas destacamos a necessidade de estudos mais aprofundados para a validação destes aplicativos, para que um futuro próximo possa servir como um grande aliado no seguimento domiciliar, no controle de um tratamento e até mesmo no rastreamento de distúrbios do sono. 
Fonte: Site do Hospital Albert Einstein