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Diagnóstico precoce das hepatites virais pode evitar doenças como cirrose e câncer de fígado

Diagnóstico precoce das hepatites virais pode evitar doenças como cirrose e câncer de fígado

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em todo o mundo, 400 milhões de pessoas estejam infectadas pelos vírus das hepatites B e C. Entretanto, a maior parte dos portadores desconhece ter a doença: apenas uma em cada 20 pessoas com hepatite sabe que tem o vírus e só um em cada 100 doentes recebe tratamento.

por pró-vida — publicado 23/07/2019

A hepatite é uma inflamação grave do fígado causada pelos vírus A, B, C, D ou E. O Dia Mundial da Luta contra as Hepatites Virais, lembrado em 28 de julho, foi criado para alertar sobre a disseminação dessa doença silenciosa que, quando não tratada, em alguns casos pode provocar cirrose, câncer de fígado e até a morte.

Populações mais vulneráveis

Infectologista no Hospital Sírio-Libanês, a dra. Maria Beatriz Gandra Souza Dias explica que a hepatite A era muito comum entre os brasileiros durante a infância, mas, com a melhoria das condições sanitárias, sua incidência em crianças diminuiu. A transmissão da hepatite A ocorre pela via fecal-oral, ou seja, o vírus é eliminado nas fezes do paciente, contamina a água ou os alimentos e pode entrar em contato com a pessoa através das mãos ou pela ingestão de alimentos contaminados.

No entanto, segundo observa a médica, desde 2016 tem sido relatado um aumento de casos de hepatite A entre homens que praticam sexo com outros homens, na Europa, nos Estados Unidos e mais recentemente na América Latina. “Isso inclui o Brasil, em particular, as cidades de São Paulo e Ribeirão Preto”, conta.

A hepatite B tem transmissão sexual ou pelo sangue. Por isso, a doença é mais comum em pessoas com grande número de parceiros sexuais e em usuários de drogas que compartilham seringas e agulhas. Sua transmissão também pode se dar por via perinatal, isto é, da mãe para o feto na gravidez, durante e após o parto; através de pequenos ferimentos na pele e nas mucosas; e por transfusões de sangue.

Cerca de metade dos casos de hepatite C tem via de transmissão desconhecida, mas na maioria das vezes ocorre por transfusão de sangue, no caso de sangue contaminado com o vírus da doença, ou pelo compartilhamento de seringas e agulhas. O tipo D infecta apenas pessoas que já são portadoras do tipo B, Já o tipo E é mais frequente em países da África e da Ásia, locais onde geralmente há falta de infraestrutura adequada de saneamento básico e onde também é transmitido pela água ou por alimentos contaminados.

“Embora a transfusão de sangue e hemoderivados (plasma, imunoglobina) tenha sido um dos principais fatores de transmissão das hepatites no passado, hoje em dia são feitos testes no sangue doado, o que diminui muita a possibilidade desse tipo de contaminação”, diz a dra. Maria Beatriz.

Sintomas das hepatites virais

As hepatites virais têm uma fase aguda cujos sintomas mais comuns são febre, enjoo, mal-estar geral, olhos e pele amarelados, urina escura e fezes esbranquiçadas. “Essa fase dura de duas semanas a três meses, e os sintomas geralmente desaparecem sozinhos. Mas, no caso da hepatite C, a fase aguda da infecção pode não apresentar sintomas”, alerta a infectologista.

Cerca de 10% das pessoas que tiveram hepatite B e 60% das que tiveram hepatite C podem evoluir para a forma crônica da doença. Nesses casos, mesmo que não haja sintomas, a doença pode resultar em cirrose ou câncer de fígado. Já a hepatite A nunca se torna crônica. Geralmente, os sintomas melhoram em cerca de duas ou três semanas, com repouso e alimentação adequada. Em alguns casos, o médico pode indicar o uso de medicamentos contra os sintomas. Muito raramente (aproximadamente 1% dos casos), a fase aguda das hepatites pode ser fatal.

Diagnóstico das hepatites virais

O diagnóstico da doença é feito por meio de exame de sangue, que detecta a presença de anticorpos contra o vírus no organismo. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente testes rápidos – cujos resultados costumam sair em 30 minutos – para detecção das hepatites B e C, as mais comuns no Brasil.

Esses testes, realizados nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTAs), são exames de triagem, ou seja, o paciente que tiver o teste positivo será encaminhado para a rede de saúde para ter seu diagnóstico mais bem avaliado. Para a realização do teste é necessária apenas uma gota de sangue. Todos aqueles que passam pelo exame recebem aconselhamento antes e depois da testagem.

Tanto a hepatite B quanto a hepatite C têm tratamento se chegarem à fase crônica, evitando que a doença evolua para cirrose hepática e suas complicações, incluindo transplante hepático e câncer de fígado.

Quem deve fazer o teste

A Sociedade Brasileira de Hepatologia recomenda a realização do teste de detecção das hepatites virais para os seguintes grupos populacionais:

  • pessoas que receberam transplante de órgãos ou tecidos;
  • pessoas que receberam transfusão de sangue ou de qualquer derivado de sangue antes de 1994;
  • doentes renais em hemodiálise;
  • pessoas que usam, ou usaram alguma vez, drogas injetáveis ou cocaína inalada;
  • indivíduos que usaram medicamentos intravenosos através de seringa de vidro nas décadas de 1970 e 1980;
  • pessoas com HIV;
  • filhos de mães infectadas com a hepatite B ou C, seguindo recomendação do pediatra;
  • pessoas que tenham feito tatuagens ou piercings em locais não vistoriados pela vigilância sanitária;
  • pessoas com parceiros sexuais de longo tempo infectados com hepatite B ou C;
  • pessoas com múltiplos parceiros sexuais ou com histórico de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs);
  • pessoas com necessidade de diagnóstico diferencial de agressão ao fígado;
  • profissionais da área da saúde, após acidente biológico ou exposição percutânea ou das mucosas com sangue contaminado;

Segundo a dra. Maria Beatriz, quem pertence a esses grupos deve realizar o teste uma vez por ano se não for imune à doença (quem já contraiu um dos tipos da hepatite fica imune a ele). “Eu acrescentaria ainda as pessoas que moram com pessoas que têm hepatites B e C”, comenta. “As demais pessoas podem ser testadas com intervalos maiores de tempo (conforme orientação médica), se sua imunidade não for confirmada”, completa.

A infectologista explica que pessoas de todas as idades têm indicação de vacinação contra hepatite B, disponível gratuitamente nos postos de saúde – a vacina é administrada em três doses, com intervalo de um mês entre a primeira e a segunda, e de cinco meses da segunda para a terceira.

A vacina contra hepatite A também está disponível na rede pública, mas apenas para crianças até 5 anos de idade, e na rede privada para as demais pessoas. “Em particular, o grupo de homens que fazem sexo com outros homens deve se vacinar neste momento contra a hepatite A, pois estão entre os mais afetados pela doença”, comenta. A hepatite C ainda não tem vacina disponível.

FONTE:  Dra. Maria Beatriz Gandra Souza Dias, infectologista no Hospital Sírio-Libanês

Publicado na página do Hospital Sírio-Libanês em 28/07/2017