E em saúde mental, você está saudável?
Infelizmente, ainda temos muitos pré-conceitos em relação ao tema saúde mental, até porque geralmente essa expressão nos evoca justamente o contrário de saúde, ou seja, aquilo que conhecemos dos adoecimentos mentais. Em outras palavras, nosso imaginário da loucura, que nos assusta e que buscamos manter bem distantes da gente. Mas, você sabe do que se trata estar doente ou mesmo saudável quando falamos de saúde mental?
A importância de rever nossos pré-conceitos e conhecer os adoecimentos mentais
Primeiramente, precisamos conhecer e trabalhar nossos medos e preconceitos para podermos nos aproximar do adoecimento mental. Infelizmente, a maioria das pessoas ou se desespera e acaba buscando precocemente os medicamentos ou tenta deixar de lado, colocar numa caixinha, negando para si mesma quando não se sentem bem. Entrar em contato com nossos sofrimentos diários e nos apropriarmos deles é o primeiro passo. Ter algum conhecimento acerca dos sinais que podem indicar a presença de um transtorno é de suma importância para podermos avaliar a necessidade de nós mesmos procurarmos ajuda profissional ou mesmo percebermos quando um familiar ou um colega está precisando dessa ajuda.
Quando se trata da saúde do nosso corpo, geralmente, é mais fácil lidarmos com ela em função do seu aspecto mais concreto (muitas vezes, trata-se de algo visível a olho nu), ou porque ela tem indicadores mais objetivos (exames) ou mesmo porque compreendemos a doença como algo externo, que nos invade. Por exemplo, quando fazemos exame de sangue e alguma taxa está alterada, temos o indicativo de que algo não vai bem no nosso corpo e, dependendo de outras investigações, é possível identificar uma doença. A partir daí, buscamos o tratamento para nos livrar dessa doença.
Nessa esfera da saúde mental, aquilo que pode indicar que não estamos bem são sentimentos que fazem parte do ser humano, como desânimo, tristeza, medo, angústia, e que precisam ser analisados com critérios de intensidade, frequência e comprometimento da nossa rotina diária. É assim que verificamos a presença de algum transtorno psíquico, como os quadros de depressão ou ansiedade.
Como esses indicadores são subjetivos, geralmente, é a própria pessoa que está em sofrimento que precisa identificar ou compreender que algo não vai bem com ela mesma e procurar ajuda. Contudo, essa pessoa pode estar tão insegura, que não valida o que sente e, portanto, não vai buscar o tratamento, ou pode ser alguém que considere que depressão é frescura e faça um esforço tremendo para manter seus compromissos diários. Temos ainda adoecimentos que alteram a capacidade de julgamento. A pessoa vive um sofrimento gigantesco relacionado a certeza de estar sendo perseguida ou, em situações mais simples, a pessoa simplesmente acredita que o problema é sempre o outro (o chefe, o pai, a mãe) que quer lhe atrapalhar ou lhe fazer mal. Em uma depressão mais grave, podemos encontrar uma apatia imensa em alguém afundado na desesperança, ou ainda uma pessoa que passa o dia todo se remoendo, ou seja, agredindo a si mesma. Ambas não têm energia para pedir ajuda. São casos que podem demorar muito a chegar ao tratamento ou mesmo não chegar. Por isso, é de fundamental importância disseminar conhecimentos em saúde mental para que aquele familiar, amigo ou colega de trabalho possa perceber que você não está bem e lhe auxiliar a buscar o tratamento adequado.
E o que é estar saudável?
Em função da globalização, da evolução das tecnologias, da disseminação das redes sociais, estamos vivendo em uma sociedade da aceleração. Hoje preconiza-se o agir em detrimento do pensar, a ilusão de satisfação via consumo e o império da felicidade. Isso influi negativamente na nossa capacidade de entrar em contato com nossos afetos e tende a nos levar a comportamentos compulsivos, reativos ou mesmo à insensibilidade.
Em outras palavras, acabamos não conseguindo suportar ou mesmo conhecer nossos anseios, desejos ou medos. Em plena sociedade do conhecimento, da informação, desconhecemos cada vez mais nós mesmos. Muitos adultos que, como crianças, não sabem nomear o que sentem; enquanto outros, iludidos pelo controle, vivem planejando, se programando para tudo e perdendo a espontaneidade. Muito comum também tem sido o sentimento de uma vida vazia, sem sentido e que acaba nos levando a buscar um refúgio nas compras, na comida ou mesmo nas drogas lícitas ou ilícitas.
Portanto, pensamos que a saúde, do ponto de vista psíquico, está relacionada com uma constante busca de apropriação dos nossos afetos articulada com a ampliação e o desenvolvimento da nossa capacidade de pensar sobre nós mesmos. O termo afeto está relacionado à nossa sensibilidade independente de estar ou não consciente. Ou seja, existem afetos inconscientes na medida em que não nos apropriamos deles, não os conhecemos, embora eles influam diretamente no nosso agir. Por ‘pensar’ compreendemos que se trata da nossa capacidade de nos debruçarmos sobre uma determinada situação ou vivência e analisarmos, avaliarmos, discernimos sobre aquilo. Lembramos que, do ponto de vista afetivo, a nossa tendência é a mistura de afetos referentes a diferentes situações, inclusive aquelas vividas no passado. É exercitando nossa capacidade de pensar que podemos separar o que necessita ser separado. Dessa forma, construímos nossa interpretação/leitura de uma determinada situação e podemos agir com base nisso.
Neste aspecto enfatizamos a importância das relações, das trocas afetivas, do compartilhamento das nossas vivências. São, nesses espaços, contando alguma coisa que vivemos, que nos damos conta de nossos sentimentos. Desacelerar, poder falar e poder escutar o outro e a nós mesmos. Isso promove a nossa saúde mental.
Lembramos que, na Antiguidade, primeiro se curava com palavras (Oráculo), depois com ervas e só depois com faca. Hoje, facilmente, os medicamentos tomam o lugar das palavras e parece que sonhamos com um futuro que, como tem retratado a série Black Mirror, em que a aplicação de um “chip” na nossa cabeça pudesse nos reprogramar para não sofrermos e sermos felizes. O sofrimento é inerente aos seres humanos, assim como a capacidade de verbalizarmos, de pensarmos e de criarmos a partir daquilo que nos mobiliza. Precisamos nos aproximar do outro e, sobretudo, de nós mesmos.
Fernanda Maria de Lacerda - psicóloga do Núcleo Psicossocial Institucional/ SESA
(fernanda.lacerda@tjdft.jus.br)