Vício em videogames é considerado oficialmente um distúrbio mental
A partir de maio deste ano (2018), data de publicação da 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), a Dependência de Videogames (DV) passa a ser considerada oficialmente uma doença, de acordo com critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Desde 2012, porém, “o uso excessivo de videogames tem sido associado a alguns sintomas e situações de saúde, como alucinações auditivas, lesões por esforço repetitivo (‘nintendinites’), enurese, encoprese e crises epiléticas”, afirma o dr. Fabio Pinato Sato, psiquiatra do Einstein.
Além disso, o especialista também recorda que em 2013 o vício em videogames foi incluído como Transtorno de Jogo pela Internet na 5ª revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mentais, mas como uma condição para estudos posteriores.
Quando o videogame é um problema?
Segundo o dr. Sato, o videogame se torna um problema quando o seu uso passa a ser excessivo ou até mesmo, compulsivo, interferindo nas atividades de vida diária, reduzindo ou alterando as relações socias, familiares e escolares. O tempo dedicado ao videogame é o tempo retirado das outras atividades.
Os critérios para o diagnóstico são:
- um comportamento de jogo persistente ou recorrente caracterizado pela perda de controle sobre ele;
- aumento da prioridade do jogo em relação a outras atividades;
- manutenção do comportamento apesar das consequências negativas;
- o padrão de comportamento é de gravidade suficiente para resultar em comprometimento significativo nas áreas de funcionamento pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional ou outras áreas importantes;
- essas características e o padrão de jogo subjacente são normalmente evidentes ao longo de um período de pelo menos 12 meses para que um diagnóstico seja atribuído, embora a duração requerida possa ser encurtada se todos os requisitos de diagnóstico forem atendidos e os sintomas forem graves.
O que muda com a nova classificação?
Formalizada a inclusão da Dependência de Videogame como uma categoria diagnóstica, os procedimentos que envolvem o tratamento e o seguimento pelos planos de saúde deverão ser automaticamente incorporados.
Mas apesar da prevalência do vício, que varia de 0.5% a 10% (Petry, Rehbein, Ko, & O’Brien, 2015), ele está longe de ser uma unanimidade. “Há muitas críticas a respeito da formalização desse diagnóstico, como o medo no excesso do diagnóstico, diagnóstico em pessoas saudáveis e a própria população dos usuários, muito heterogênea na sua classificação”, afirma o dr. Sato.
As preocupações com os comportamentos excessivos/patológicos de jogo têm tido cada vez mais importância no mundo científico. No entanto, para alguns pesquisadores está longe de ser claro que esses problemas podem ou devem ser atribuídos a uma nova categoria diagnóstica.
As principais preocupações estão relacionadas a baixa qualidade das pesquisas estruturais (variabilidade da amostra, diferenças importantes do modelo etc), da ideia dos critérios estarem muito relacionados aos do uso de substâncias químicas, na falta de consenso sobre sintomatologia em geral e na qualificação específica de jogos que realmente oferecem risco.
Como o vício atua na mente?
O Transtorno do Jogo pela Internet (DSM -5) e a Dependência de Videogames (CID-11) são associados aos Transtornos Não Relacionados a Substâncias, portanto, possuem essencialmente como características o abuso, a dependência, a tolerância e a abstinência (obviamente, cada um com as suas especificidades).
Atualmente, vários estudos mostram resultados consistentes que demonstram a semelhança entre os mecanismos neurais subjacentes ao uso de substâncias químicas e o vício de videogames - mudanças estruturais e mecanismos funcionais alterados de recompensa e fissura na DV que são semelhantes aos distúrbios do uso de substâncias.
Tratamento
O tratamento para a DV ainda não foi completamente estabelecido. Até o momento, de acordo com o dr. Sato, existem poucas publicações propondo uma terapêutica não empírica. No entanto, as abordagens visam intervenções e estratégias para o controle do uso que geralmente incluem o estabelecimento de regras e diretrizes adequadas para que os usuários assegurem tempo para as outras atividades, entrando em grupos de suporte e terapia familiar. A princípio, a abordagem terapêutica mais adequada é a Terapia Cognitivo-Comportamental, associada, quando necessário, a um suporte farmacológico.
Fonte: Site Hospital Albert Einstein