ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A QUESTÃO DO CONHECIMENTO EM SÓCRATES, PLATÃO E ARISTÓTELES - Juiz Waldir Leôncio Júnior
Algumas reflexões sobre a questão do conhecimento em Sócrates, Platão e Aristóteles Waldir Leôncio Júnior Resumo No presente artigo são formulados breves comentários sobre aspectos das filosofias socrática, platônica e aristotélica que influenciaram a teoria do conhecimento ocidental. Abstract: In this article, the author comments about Socrates, Plato and Aristotle?s philosophies quoting, who influenced the Occidental Knowledge Theory. Resúmen: En este artículo el autor hace breves comentários acerca de aspectos de las filosofias socrática, platónica y aristotélica que influyeron en la teoria del conocimiento occidental. Sumário: 1. Sócrates. 1.2 Como concebia Sócrates o fazer filosofia. 1.3 O significado da expressão ?só sei que nada sei?. 1.4 A relação verdade e vida, no pensamento socrático. 2. Platão. 2.1 O conhecimento em Platão relacionado com a idéia de episteme (conhecimento verdadeiro, pertencente ao mundo das idéias ou das formas). 2.2 Ética e razão são imbricadas na filosofia de Platão. 2.3 A função da filosofia , a partir da concepção platônica. 3. Aristóteles. 3.1 A admissão da verdade como sendo algo exterior. 3.2 A importância da noção de movimento da teoria aristotélica, sobretudo no que se refere à questão do conhecimento. 4. Bibliografia. SÓCRATES
Sócrates não deixou nenhuma obra escrita. Sua filosofia foi-nos repassada por Platão, seu discípulo. Como Sócrates, outros sábios e místicos também não deixaram obras escritas assinadas, como é o caso de Jesus Cristo, Buda, Confúcio, cujas doutrinas, no entanto, contrariando a máxima latina segundo a qual verba volant, scripta manet, não ficaram enfraquecidas. Mais que palavras, deixaram escrito no coração dos discípulos o exemplo de amor à verdade e à humanidade .
A filosofia socrática reflete o ideal do homem grego de sua época, dedicado à sua cidade e obediente às suas leis, às quais se submete ainda que venha a perder a vida (é preferível morrer a ter a lei da polis descumprida!). É uma filosofia ?local? que, por isso mesmo, é universal.
Nele, o homem é o centro do universo, o qual abrange os deuses, a pólis, a natureza, o pensamento, a moral, a ética, a política, o amor, a amizade, o bem, a morte, a verdade, a alma ....
Com a ironia socrática do ?só sei que nada sei? e do ?conhece-te a ti mesmo?, levada às últimas conseqüências, Sócrates legou à posteridade uma lição de uma filosofia ética revolucionária e renovadora; demolidora e reconstrutora .
1.2 Como concebia Sócrates o fazer filosofia.
Filho de parteira, Sócrates engendrou o ?método? ?maiêutico?, por meio do qual pretendia provocar os interlocutores a ponto de neles próprios ?parir idéias?. Amigo da verdade e inconformado com as falsas verdades de seu tempo, praticou uma ?filosofia investigativa?, reflexiva. A incapacidade de encontrar respostas completas e adequadas não era justificativa para que o homem se conformasse com a ignorância, ou se limitasse ao aparente, ao dado pela cultura de sua época. Nesse sentido, a Filosofia Socrática era ?revolucionária?. A atitude filosófica de busca do conhecimento, da verdade, devia ser, ao mesmo tempo, uma luta constante contra as falsas aparências.
Sócrates era um ateniense participativo, atuante (participou de várias campanhas militares, com coragem e heroísmo, como no cerco a Potidéia, por exemplo). Amava sua cidade, seus concidadãos. Observava as leis de seu tempo. Odiava a mentira. Relacionava a busca do conhecimento com a busca do bem: ?o agir mal é não saber?. Desprezava a arrogância. Defendia que os detentores do conhecimento deveriam compartilhá-lo gratuitamente com as outras pessoas, pois o saber é recebido gratuitamente e assim não deve ser ?trocado? por dinheiro. Daí o seu furor contra os sofistas, a quem considerava ?exploradores?.
Buscar o conhecimento, buscar a verdade, portanto, para Sócrates era uma questão de compromisso ético em direção a uma vida melhor para a comunidade.
A atitude filosófica era, então, para Sócrates, inconformar-se com o aparente, o superficial, o fácil, o imediato, o cômodo. Por isso Sócrates incomodou e foi acusado falsamente de corromper os jovens de seu tempo e de pregar contra os deuses.
1.3 O significado da expressão ?só sei que nada sei?.
Segundo alguns historiadores, ao ser indicado por um oráculo de Delphos como o homem mais sábio da Grécia em seu tempo, Sócrates surpreendeu-se. Foi ouvir as pessoas reputadas sábias e observou nelas uma segurança no falar, cujo conteúdo, todavia, não era satisfatório e não resistia a uma investigação. Concluiu, então, que melhor que se julgar sabedor de algo e não sê-lo é ter convicção de que o que se sabe é insuficiente. Então, ?quem sabe que não sabe, sabe mais que aquele que pensa que sabe e não sabe?, como era o seu caso. E porque se encontrava nessa condição de um investigador do conhecimento, amigo, portanto, da ?verdadeira verdade?, aquela que não se circunscreve à aparência, era mais sábio que seus contemporâneos que, ao contrário, posavam de ?donos da verdade?, como os sofistas.
Antes, portanto, de ser uma expressão de modéstia, é uma opção que representa uma atitude ética e filosófica, no sentido de abertura da razão; é também uma condição para a apreensão do conhecimento.
?Só sei que nada sei? é uma das muitas conseqüências do ?Conhece-te a ti mesmo? do Templo de Apolo em Delphos.
1.4 A relação verdade e vida, no pensamento socrático.
Sócrates amava a verdade. Buscava-a constantemente. Ao ouvir as pessoas, indagava-as a ponto de levá-las a contradições e aporias. Não pretendia apenas vencer debates. Admitia ser ?tagarela? e ?conversador?, mas a tagarelice para ele consistia em conversas entre pessoas interessadas em aproximar-se da verdade; assim, poderiam viver melhor, o que foi considerado ?intelectualismo ético?.
Para Sócrates, como, depois, Platão vai desenvolver em sua filosofia ?especialmente nos diálogos FÉDON e TEETETO?, alcançar a verdade significa, alcançar o bem, a salvação da vida .
Não é difícil ver o quanto Sócrates estava certo e como o seu pensamento continua atual. A verdade está no todo, e este nem sempre é apreendido (como a fenomenologia e Dilthey deixam evidente). Por ser assim, já que o ?captado?, o apreendido, o manifestado, é menor do que a coisa verdadeira, a busca da verdade corresponde à busca da vida. A palavra sagrada confirma: ?conhecerás a verdade e a verdade vos libertará?.
A vida é verdadeira. Eu sei que existo! E porque existo, penso, sinto, vivo, quero saber a verdade. A verdade liberta para a vida.
Enfim, ?Em Sócrates, a verdade, o conhecimento, que até então eram colocados como que de fora para dentro do homem, agora tornam-se manifestações da consciência individual? . A ruptura, ou revolução inovadora, do pensamento socrático consistiu em que ?partindo da reflexão ..., o pensamento aplica-se primeiro ao conceito e depois, por intermédio deste, ao objeto propriamente dito? .
Sócrates então inaugura uma etapa no pensamento ocidental que vai desenvolver-se como Metafísica e fundar as bases do conhecimento racional que depois irá proporcionar a evolução das ciências e da Teologia.
2. Platão
2.1 O conhecimento em Platão relacionado com a idéia de episteme (conhecimento verdadeiro, pertencente ao mundo das idéias ou das formas).
PLATÃO, discípulo de Sócrates e fundador da Academia, escreveu vários livros sob a forma de diálogos em que reproduz os ensinamentos do mestre, que, ao mesmo tempo, é o personagem central de sua obra.
Platão, de família nobre (descendente, pela linha materna, de Sólon, célebre legislador e considerado um dos ?Sete Sábios da Grécia?), tentou a arte e os esportes antes da filosofia. Mas ao conhecer Sócrates redirecionou sua vida e deu seqüência à filosofia. Percorreu o Oriente e teve acesso à Escola dos Mistérios. Identificam-se nele duas filosofias: esotérica (filosofia dirigida a seus discípulos) e exotérica (filosofia dirigida ao público de fora). Essas influências ficam evidentes em suas obras. Na mais conhecida (A República), trata da filosofia moral, da ética, da estética, da história, da alma, do destino e da origem do homem, da cidade, do filósofo, dos militares, artesãos, agricultores, professores ...
A filosofia platônica é identificada como idealista, porque para seu modelo filosófico o que se tem aqui, neste mundo, é mero reflexo de um mundo real que se encontra no mundo das idéias. A idéia é determinante no conhecimento de Platão. Postas além do mundo físico e separadas das coisas, as idéias constituem princípio inteligente, causa formal e final, do verdadeiro mundo, o Mundo das Idéias.
No célebre Mito da Caverna (Livro VII da República) fica bem clara a lição platônica segundo a qual o mundo das idéias é o mundo do bem, belo, verdadeiro, real, perfeito; o mundo sensível (aparente), é uma cópia imperfeita do mundo das idéias.
Com Platão, inicia-se uma nova dialética , que vai constituir um dos pilares da filosofia e uma das bases do conhecimento. Sua dialética é ??a arte de encadear proposições, desde os dados sensíveis até o conhecimento de noções abstratas?. A dialética ascende, vai do sensível até o mundo das idéias. E a descendente traz a vida e a prática diária do que se aprendeu do ser, do amor, da justiça, das relações políticas no mundo inteligível. Assim, para Platão, conhecer não é apenas chegar à verdade, mas também reecontrar o ser, a justiça, o bem, que devem, depois de conhecidos, transformar os atos de nossa vida? . Em resumo, pode-se dizer que para Platão, a dialética consistia uma forma de dialogar (discutir) para encontrar a verdade .
Inicia-se, também, com Platão, uma filosofia ?em ação? (de que já falava Pitágoras (que também nada deixou escrito e era igualmente místico) em seus ?Versos de Ouro?.
Como Pitágoras, reputava o conhecimento da matemática indispensável a quem quer aprender filosofia. Mandou escrever uma faixa na Academia, na qual deixava claro o recado: por aqui não passa quem não sabe geometria.
Platão teve seus desencantos e sofrimentos. Chegou a ser negociado como escravo e foi resgatado. Seu pensamento evoluiu. Entre A República e As leis (obra da maturidade), percebe-se a evolução de alguns conceitos.
2.2 Ética e razão são imbricadas na filosofia de Platão.
Como pitagórico, Platão tinha uma concepção daquilo que hoje se poderia dizer ?transcendentalidade?. Os homens, na essência, são transcendentais. Os homens detêm conhecimento transcendental (teoria da reminiscência das idéias). Isso conduz a uma interligação das subjetividades que se encontram e constituem uma realidade objetiva. Confira-se: ?Mas não basta apenas um nexo estrutural que unifique as subjetividades. É necessário um princípio dinâmico de interação entre os seres humanos, e entre humanos e as idéias, já que a ascensão da alma exige um movimento da mesma. Esse princípio é Eros, que torna dinâmica a relação entre subjetividade e intersubjetividade, o que possibilita o acesso à objetividade? .
A ética é a praxis da razão (theoria). É o resultado de uma escolha, de uma opção por um caminho, pelo caminho da com-vivência. Com-viver é bem-viver. Bem-viver é viver-com. Não se trata de joguete de palavras inventadas. Mas essa implicação cíclica e recíproca só é possível porque é regida pelo Eros, pelo amor. O amor é bom, quer o bem, quer a harmonia, ainda quando esta decorra de um confronto (dialética), pois si vis pacem, para bellum.
A razão poderia levar a outros resultados, e algumas vezes conduz, que não à ética. Isso ocorre quando prevalece o egoísmo, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, é um egoísmo irracional, porque o homem é social por natureza, vive em comunidade (maior ou menor, família ou sociedade), logo, não vive só para si, por si, nem em si; vive para si e para os outros: COM-VIVE. A com-vivência aquece, conforta espiritualmente, gera uma sensação de segurança que, de outra forma seria impossível. O amor une. Como ensina a sabedoria popular, ?só o amor constrói?.
Como diz Montaigne: ?Não há nada tão belo e legítimo, como o homem fazer bem e de acordo com o que é prescrito?, em outras palavras: agir eticamente, conforme a razão; ou agir conforme a razão, eticamente.
No livro V da República, Platão situa o filósofo como ?amigo do saber? e ?amigo da opinião?. Com isso, indica que filósofo não é apenas quem é ?membro de uma escola de pensamento entre outras escolas, equipado com doutrinas expressas em fórmulas convenientemente sistematizadas? , mas ?o homem perfeito, que una na sua pessoa todas as virtudes humanas que possam conceber-se? .
2.3 A função da filosofia , a partir da concepção platônica.
Platão fala de uma filosofia transformadora, a qual está bem nítida no mito da caverna . A experiência do prisioneiro que sai da caverna, conhece uma nova realidade, percebe que as idéias anteriores precisam ser revistas, revê suas idéias anteriores, lembra-se dos companheiros que ainda estão afetados por elas, e decide retornar, mesmo sabendo que pode ser desacreditado por eles e tido por louco e até mesmo maltratado. Pensa no bem, na missão renovadora do filósofo e aceita o desafio.
As duas dialéticas, ascendente e descendente, operando no mesmo plano, mundo das idéias, permitem que conceitos sejam sempre reelaborados e que, também, possibilitem uma transformação da vida, como ocorre com a prática do bem, do bom e da justiça.
Muito tempo depois de Platão, Kant desenvolve um pensamento próximo, com as críticas da razão pura, da razão prática e da razão de julgar.
Enfim, ?A construção do conhecimento constitui, assim, no platonismo, uma conjugação de intelecto e emoção, de razão e vontade; a episteme é fruto da inteligência e de amor?
3. Aristóteles.
3.1 A admissão da verdade como sendo algo exterior.
Discípulo de Platão, afastou-se da linha de pensamento do mestre, o qual depois criticou severamente e fundou o Liceu.
Autor de pensamento rigoroso, legou, como Platão, vasta obra, a qual foi recolhida pela tradição filosófica. Com ele se inaugura uma nova filosofia, que mais tarde foi ?batizada? de realista.
A filosofia aristotélica é rigorosa e sistematizadora. Possibilita o desenvolvimento de uma ontologia da n
Sócrates não deixou nenhuma obra escrita. Sua filosofia foi-nos repassada por Platão, seu discípulo. Como Sócrates, outros sábios e místicos também não deixaram obras escritas assinadas, como é o caso de Jesus Cristo, Buda, Confúcio, cujas doutrinas, no entanto, contrariando a máxima latina segundo a qual verba volant, scripta manet, não ficaram enfraquecidas. Mais que palavras, deixaram escrito no coração dos discípulos o exemplo de amor à verdade e à humanidade .
A filosofia socrática reflete o ideal do homem grego de sua época, dedicado à sua cidade e obediente às suas leis, às quais se submete ainda que venha a perder a vida (é preferível morrer a ter a lei da polis descumprida!). É uma filosofia ?local? que, por isso mesmo, é universal.
Nele, o homem é o centro do universo, o qual abrange os deuses, a pólis, a natureza, o pensamento, a moral, a ética, a política, o amor, a amizade, o bem, a morte, a verdade, a alma ....
Com a ironia socrática do ?só sei que nada sei? e do ?conhece-te a ti mesmo?, levada às últimas conseqüências, Sócrates legou à posteridade uma lição de uma filosofia ética revolucionária e renovadora; demolidora e reconstrutora .
1.2 Como concebia Sócrates o fazer filosofia.
Filho de parteira, Sócrates engendrou o ?método? ?maiêutico?, por meio do qual pretendia provocar os interlocutores a ponto de neles próprios ?parir idéias?. Amigo da verdade e inconformado com as falsas verdades de seu tempo, praticou uma ?filosofia investigativa?, reflexiva. A incapacidade de encontrar respostas completas e adequadas não era justificativa para que o homem se conformasse com a ignorância, ou se limitasse ao aparente, ao dado pela cultura de sua época. Nesse sentido, a Filosofia Socrática era ?revolucionária?. A atitude filosófica de busca do conhecimento, da verdade, devia ser, ao mesmo tempo, uma luta constante contra as falsas aparências.
Sócrates era um ateniense participativo, atuante (participou de várias campanhas militares, com coragem e heroísmo, como no cerco a Potidéia, por exemplo). Amava sua cidade, seus concidadãos. Observava as leis de seu tempo. Odiava a mentira. Relacionava a busca do conhecimento com a busca do bem: ?o agir mal é não saber?. Desprezava a arrogância. Defendia que os detentores do conhecimento deveriam compartilhá-lo gratuitamente com as outras pessoas, pois o saber é recebido gratuitamente e assim não deve ser ?trocado? por dinheiro. Daí o seu furor contra os sofistas, a quem considerava ?exploradores?.
Buscar o conhecimento, buscar a verdade, portanto, para Sócrates era uma questão de compromisso ético em direção a uma vida melhor para a comunidade.
A atitude filosófica era, então, para Sócrates, inconformar-se com o aparente, o superficial, o fácil, o imediato, o cômodo. Por isso Sócrates incomodou e foi acusado falsamente de corromper os jovens de seu tempo e de pregar contra os deuses.
1.3 O significado da expressão ?só sei que nada sei?.
Segundo alguns historiadores, ao ser indicado por um oráculo de Delphos como o homem mais sábio da Grécia em seu tempo, Sócrates surpreendeu-se. Foi ouvir as pessoas reputadas sábias e observou nelas uma segurança no falar, cujo conteúdo, todavia, não era satisfatório e não resistia a uma investigação. Concluiu, então, que melhor que se julgar sabedor de algo e não sê-lo é ter convicção de que o que se sabe é insuficiente. Então, ?quem sabe que não sabe, sabe mais que aquele que pensa que sabe e não sabe?, como era o seu caso. E porque se encontrava nessa condição de um investigador do conhecimento, amigo, portanto, da ?verdadeira verdade?, aquela que não se circunscreve à aparência, era mais sábio que seus contemporâneos que, ao contrário, posavam de ?donos da verdade?, como os sofistas.
Antes, portanto, de ser uma expressão de modéstia, é uma opção que representa uma atitude ética e filosófica, no sentido de abertura da razão; é também uma condição para a apreensão do conhecimento.
?Só sei que nada sei? é uma das muitas conseqüências do ?Conhece-te a ti mesmo? do Templo de Apolo em Delphos.
1.4 A relação verdade e vida, no pensamento socrático.
Sócrates amava a verdade. Buscava-a constantemente. Ao ouvir as pessoas, indagava-as a ponto de levá-las a contradições e aporias. Não pretendia apenas vencer debates. Admitia ser ?tagarela? e ?conversador?, mas a tagarelice para ele consistia em conversas entre pessoas interessadas em aproximar-se da verdade; assim, poderiam viver melhor, o que foi considerado ?intelectualismo ético?.
Para Sócrates, como, depois, Platão vai desenvolver em sua filosofia ?especialmente nos diálogos FÉDON e TEETETO?, alcançar a verdade significa, alcançar o bem, a salvação da vida .
Não é difícil ver o quanto Sócrates estava certo e como o seu pensamento continua atual. A verdade está no todo, e este nem sempre é apreendido (como a fenomenologia e Dilthey deixam evidente). Por ser assim, já que o ?captado?, o apreendido, o manifestado, é menor do que a coisa verdadeira, a busca da verdade corresponde à busca da vida. A palavra sagrada confirma: ?conhecerás a verdade e a verdade vos libertará?.
A vida é verdadeira. Eu sei que existo! E porque existo, penso, sinto, vivo, quero saber a verdade. A verdade liberta para a vida.
Enfim, ?Em Sócrates, a verdade, o conhecimento, que até então eram colocados como que de fora para dentro do homem, agora tornam-se manifestações da consciência individual? . A ruptura, ou revolução inovadora, do pensamento socrático consistiu em que ?partindo da reflexão ..., o pensamento aplica-se primeiro ao conceito e depois, por intermédio deste, ao objeto propriamente dito? .
Sócrates então inaugura uma etapa no pensamento ocidental que vai desenvolver-se como Metafísica e fundar as bases do conhecimento racional que depois irá proporcionar a evolução das ciências e da Teologia.
2. Platão
2.1 O conhecimento em Platão relacionado com a idéia de episteme (conhecimento verdadeiro, pertencente ao mundo das idéias ou das formas).
PLATÃO, discípulo de Sócrates e fundador da Academia, escreveu vários livros sob a forma de diálogos em que reproduz os ensinamentos do mestre, que, ao mesmo tempo, é o personagem central de sua obra.
Platão, de família nobre (descendente, pela linha materna, de Sólon, célebre legislador e considerado um dos ?Sete Sábios da Grécia?), tentou a arte e os esportes antes da filosofia. Mas ao conhecer Sócrates redirecionou sua vida e deu seqüência à filosofia. Percorreu o Oriente e teve acesso à Escola dos Mistérios. Identificam-se nele duas filosofias: esotérica (filosofia dirigida a seus discípulos) e exotérica (filosofia dirigida ao público de fora). Essas influências ficam evidentes em suas obras. Na mais conhecida (A República), trata da filosofia moral, da ética, da estética, da história, da alma, do destino e da origem do homem, da cidade, do filósofo, dos militares, artesãos, agricultores, professores ...
A filosofia platônica é identificada como idealista, porque para seu modelo filosófico o que se tem aqui, neste mundo, é mero reflexo de um mundo real que se encontra no mundo das idéias. A idéia é determinante no conhecimento de Platão. Postas além do mundo físico e separadas das coisas, as idéias constituem princípio inteligente, causa formal e final, do verdadeiro mundo, o Mundo das Idéias.
No célebre Mito da Caverna (Livro VII da República) fica bem clara a lição platônica segundo a qual o mundo das idéias é o mundo do bem, belo, verdadeiro, real, perfeito; o mundo sensível (aparente), é uma cópia imperfeita do mundo das idéias.
Com Platão, inicia-se uma nova dialética , que vai constituir um dos pilares da filosofia e uma das bases do conhecimento. Sua dialética é ??a arte de encadear proposições, desde os dados sensíveis até o conhecimento de noções abstratas?. A dialética ascende, vai do sensível até o mundo das idéias. E a descendente traz a vida e a prática diária do que se aprendeu do ser, do amor, da justiça, das relações políticas no mundo inteligível. Assim, para Platão, conhecer não é apenas chegar à verdade, mas também reecontrar o ser, a justiça, o bem, que devem, depois de conhecidos, transformar os atos de nossa vida? . Em resumo, pode-se dizer que para Platão, a dialética consistia uma forma de dialogar (discutir) para encontrar a verdade .
Inicia-se, também, com Platão, uma filosofia ?em ação? (de que já falava Pitágoras (que também nada deixou escrito e era igualmente místico) em seus ?Versos de Ouro?.
Como Pitágoras, reputava o conhecimento da matemática indispensável a quem quer aprender filosofia. Mandou escrever uma faixa na Academia, na qual deixava claro o recado: por aqui não passa quem não sabe geometria.
Platão teve seus desencantos e sofrimentos. Chegou a ser negociado como escravo e foi resgatado. Seu pensamento evoluiu. Entre A República e As leis (obra da maturidade), percebe-se a evolução de alguns conceitos.
2.2 Ética e razão são imbricadas na filosofia de Platão.
Como pitagórico, Platão tinha uma concepção daquilo que hoje se poderia dizer ?transcendentalidade?. Os homens, na essência, são transcendentais. Os homens detêm conhecimento transcendental (teoria da reminiscência das idéias). Isso conduz a uma interligação das subjetividades que se encontram e constituem uma realidade objetiva. Confira-se: ?Mas não basta apenas um nexo estrutural que unifique as subjetividades. É necessário um princípio dinâmico de interação entre os seres humanos, e entre humanos e as idéias, já que a ascensão da alma exige um movimento da mesma. Esse princípio é Eros, que torna dinâmica a relação entre subjetividade e intersubjetividade, o que possibilita o acesso à objetividade? .
A ética é a praxis da razão (theoria). É o resultado de uma escolha, de uma opção por um caminho, pelo caminho da com-vivência. Com-viver é bem-viver. Bem-viver é viver-com. Não se trata de joguete de palavras inventadas. Mas essa implicação cíclica e recíproca só é possível porque é regida pelo Eros, pelo amor. O amor é bom, quer o bem, quer a harmonia, ainda quando esta decorra de um confronto (dialética), pois si vis pacem, para bellum.
A razão poderia levar a outros resultados, e algumas vezes conduz, que não à ética. Isso ocorre quando prevalece o egoísmo, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, é um egoísmo irracional, porque o homem é social por natureza, vive em comunidade (maior ou menor, família ou sociedade), logo, não vive só para si, por si, nem em si; vive para si e para os outros: COM-VIVE. A com-vivência aquece, conforta espiritualmente, gera uma sensação de segurança que, de outra forma seria impossível. O amor une. Como ensina a sabedoria popular, ?só o amor constrói?.
Como diz Montaigne: ?Não há nada tão belo e legítimo, como o homem fazer bem e de acordo com o que é prescrito?, em outras palavras: agir eticamente, conforme a razão; ou agir conforme a razão, eticamente.
No livro V da República, Platão situa o filósofo como ?amigo do saber? e ?amigo da opinião?. Com isso, indica que filósofo não é apenas quem é ?membro de uma escola de pensamento entre outras escolas, equipado com doutrinas expressas em fórmulas convenientemente sistematizadas? , mas ?o homem perfeito, que una na sua pessoa todas as virtudes humanas que possam conceber-se? .
2.3 A função da filosofia , a partir da concepção platônica.
Platão fala de uma filosofia transformadora, a qual está bem nítida no mito da caverna . A experiência do prisioneiro que sai da caverna, conhece uma nova realidade, percebe que as idéias anteriores precisam ser revistas, revê suas idéias anteriores, lembra-se dos companheiros que ainda estão afetados por elas, e decide retornar, mesmo sabendo que pode ser desacreditado por eles e tido por louco e até mesmo maltratado. Pensa no bem, na missão renovadora do filósofo e aceita o desafio.
As duas dialéticas, ascendente e descendente, operando no mesmo plano, mundo das idéias, permitem que conceitos sejam sempre reelaborados e que, também, possibilitem uma transformação da vida, como ocorre com a prática do bem, do bom e da justiça.
Muito tempo depois de Platão, Kant desenvolve um pensamento próximo, com as críticas da razão pura, da razão prática e da razão de julgar.
Enfim, ?A construção do conhecimento constitui, assim, no platonismo, uma conjugação de intelecto e emoção, de razão e vontade; a episteme é fruto da inteligência e de amor?
3. Aristóteles.
3.1 A admissão da verdade como sendo algo exterior.
Discípulo de Platão, afastou-se da linha de pensamento do mestre, o qual depois criticou severamente e fundou o Liceu.
Autor de pensamento rigoroso, legou, como Platão, vasta obra, a qual foi recolhida pela tradição filosófica. Com ele se inaugura uma nova filosofia, que mais tarde foi ?batizada? de realista.
A filosofia aristotélica é rigorosa e sistematizadora. Possibilita o desenvolvimento de uma ontologia da n