SAÚDE MENTAL E TRABALHO, UMA PERSPECTIVA SOMBRIA - Dr. Cláudio Portella
Estudos recentemente publicados indicam que até meados da próxima década a depressão deverá estar ocupando um lugar no pódio dentre as principais doenças causadoras de incapacidade para o trabalho no mundo. Vou além e afirmo que não só a depressão mas um corolário, um grande mosaico de disfunções psiquicas e psicossomáticas comporão este panorama sombrio.
A hecatombe já está em curso, informações compiladas das bases de dados de órgãos do serviço público no Distrito Federal mostram que atualmente as "doenças da alma", como eram tão bem definidas pelos gregos, já são em alguns órgãos e empresas públicas, direta ou indiretamente responsáveis por aproximadamente 40% do total de número de dias de absenteísmo ao trabalho por doença, e por quase um terço das aposentadorias por incapacidade de trabalho. E ainda, temos que nos lembrar que o problema não se restringe tão somente ao absenteísmo ou aposentadorias precoces resultantes de doenças mentais, envolve com uma freqüência impressionante vários fatores resultantes de uma ambiente de trabalho nocivo à saúde mental, levando à desmotivação, à diminuição do envolvimento e do compromisso com o trabalho e por fim ao que todo gerente e todo empresário teme: à queda da produtividade.
O panorama é ainda mais desolador se levarmos em consideração que a literatura médica é farta em artigos consistentes que demonstram, sem sombra de dúvida, a intrínseca relação que muitas vezes se dá entre disfunções psíquicas e disfunções físicas. Vejamos um exemplo no qual os cardiologistas freqüentemente se deparam: indivíduos em que os níveis da pressão arterial acompanham (para cima) os níveis de ansiedade ou de estresse psicológico. Bem, sabemos que pressão arterial elevada é importante fator de risco para doenças cardiovasculares, e que estas por sua vez são nada mais nada menos que a 1ª causa de morte e incapacidade definitiva. Portanto não é necessário muito esforço para deduzir o enorme risco potencial das disfunções psíquicas para a saúde do nosso sistema circulatório, e certamente também para outros sistemas do nosso organismo.
Ultimamente temos nos esforçado como sociedade para provermos melhores hábitos alimentares e físicos a fim de prevenirmos, primordialmente, as doenças circulatórias, mas o que temos feito do ponto-de-vista de promoção da saúde mental a fim de prevenirmos estas mesmas doenças? Sinceramente, não muito.
E não é só, doenças que não têm um perfil tão devastador mas mesmo assim são bastante preocupantes pelo seu potencial de comprometimento da qualidade de vida, e de frequente incapacitação, como a fibromialgia, são parceiras, muitas vezes inseparáveis, das "almas" deprimidas, ansiosas e angustiadas...E no entanto, seja no âmbito pessoal, seja no âmbito instituciona,l pouco ou quase nada temos feito para promover a saúde mental dos indivíduos e dos grupos que compõem os quadros de nossas empresas.
Será difícil perceber que todo o nosso organismo está profundamente suscetível às "tempestades neuroquimicas e elétricas" que enxurram nosso cérebro aos bilhões, quiçá aos trilhões. Ignorar este fato, concentrando nossa atenções e preocupações apenas no corpo, é como fixar nossa percepção da luz noturna apenas nos letreiros de néon e nos faróis dos carros, ignorando a maravilhosa "dança" das estrelas no céu noturno sobre nossas cabeças.
Será que devemos ampliar nosso horizonte de cuidados com a saúde para além das fronteiras do corpo? Sem dúvida, pois do contrário estaremos agindo como loucos que pretendem ser alguém sem conhecer com totalidade a si próprios.
Por vezes tenho a nítida impressão de que tratamos a mente apenas como um apêndice de nós mesmos, apenas como um acessório. Se fosse essa a realidade, assim como tiramos os óculos ou a dentadura, tiraríamos também a cabeça e a colocaríamos sobre o criado-mudo na hora de dormir!
Não podemos viver apenas como um corpo, "não só de pão vive o homem" já dizia há dois mil anos um dos homens mais sábios que caminharam sobre este planeta. Temos duas dimensões em nossa existência como seres vivos conscientes: uma corporal e outra mental, ambas devem ser alimentadas e satisfeitas, ambas devem receber igual oportunidade de crescimento. No oriente, por questões predominantemente culturais, milhões de pessoas privilegiam a mente em detrimento do corpo, o resultado é de uma grande massa de sábios e meditadores famintos, doentes e miseráveis... No ocidente também por questões predominantemente culturais, milhões de pessoas privilegiam o corpo em detrimento da mente , tendo como referência um modelo de corpos atléticos, sarados, bem alimentados(mas não necessariamente bem nutridos), preocupados com terapias milagrosas que prometem a juventude, a beleza e o equilíbrio do corpo, apenas do corpo !!! O resultado: uma multidão de obcecados por pílulas de anti-oxidantes, por uma pele sem rugas, por uma "máquina corporal" (que definição deliciosamente cartesiana!) bem lubrificada e regulada" e cercada de parafernálias tecnológicas que bem representam a abundância do mundo ocidental...não que isto não seja positivo para o corpo, mas o problema é que no meio de toda essa abundância "técnico-corporal" encontramos, com uma freqüência maior do que desejaríamos, um homem mentalmente pobre, ausente de "alma", perdido...sem saber quem é, porque é e o que realmente quer, sentindo-se talvez como apenas mais uma peça na engrenagem dos conceitos, modelos e concepções fragmentadas e incompletas que a sociedade escolheu para ele ( e ele passivamente as aceitou), inclusive esta que insiste em "esquartejar" o homem, recusando-se a vê-lo como realmente é: uma totalidade.
(*) Cláudio Portella é médico com 15 anos de experiência em saúde ocupacional e exerce no momento, a subsecretaria de serviços médicos e a vice-presidência da comissão de qualidade de vida do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios.
A hecatombe já está em curso, informações compiladas das bases de dados de órgãos do serviço público no Distrito Federal mostram que atualmente as "doenças da alma", como eram tão bem definidas pelos gregos, já são em alguns órgãos e empresas públicas, direta ou indiretamente responsáveis por aproximadamente 40% do total de número de dias de absenteísmo ao trabalho por doença, e por quase um terço das aposentadorias por incapacidade de trabalho. E ainda, temos que nos lembrar que o problema não se restringe tão somente ao absenteísmo ou aposentadorias precoces resultantes de doenças mentais, envolve com uma freqüência impressionante vários fatores resultantes de uma ambiente de trabalho nocivo à saúde mental, levando à desmotivação, à diminuição do envolvimento e do compromisso com o trabalho e por fim ao que todo gerente e todo empresário teme: à queda da produtividade.
O panorama é ainda mais desolador se levarmos em consideração que a literatura médica é farta em artigos consistentes que demonstram, sem sombra de dúvida, a intrínseca relação que muitas vezes se dá entre disfunções psíquicas e disfunções físicas. Vejamos um exemplo no qual os cardiologistas freqüentemente se deparam: indivíduos em que os níveis da pressão arterial acompanham (para cima) os níveis de ansiedade ou de estresse psicológico. Bem, sabemos que pressão arterial elevada é importante fator de risco para doenças cardiovasculares, e que estas por sua vez são nada mais nada menos que a 1ª causa de morte e incapacidade definitiva. Portanto não é necessário muito esforço para deduzir o enorme risco potencial das disfunções psíquicas para a saúde do nosso sistema circulatório, e certamente também para outros sistemas do nosso organismo.
Ultimamente temos nos esforçado como sociedade para provermos melhores hábitos alimentares e físicos a fim de prevenirmos, primordialmente, as doenças circulatórias, mas o que temos feito do ponto-de-vista de promoção da saúde mental a fim de prevenirmos estas mesmas doenças? Sinceramente, não muito.
E não é só, doenças que não têm um perfil tão devastador mas mesmo assim são bastante preocupantes pelo seu potencial de comprometimento da qualidade de vida, e de frequente incapacitação, como a fibromialgia, são parceiras, muitas vezes inseparáveis, das "almas" deprimidas, ansiosas e angustiadas...E no entanto, seja no âmbito pessoal, seja no âmbito instituciona,l pouco ou quase nada temos feito para promover a saúde mental dos indivíduos e dos grupos que compõem os quadros de nossas empresas.
Será difícil perceber que todo o nosso organismo está profundamente suscetível às "tempestades neuroquimicas e elétricas" que enxurram nosso cérebro aos bilhões, quiçá aos trilhões. Ignorar este fato, concentrando nossa atenções e preocupações apenas no corpo, é como fixar nossa percepção da luz noturna apenas nos letreiros de néon e nos faróis dos carros, ignorando a maravilhosa "dança" das estrelas no céu noturno sobre nossas cabeças.
Será que devemos ampliar nosso horizonte de cuidados com a saúde para além das fronteiras do corpo? Sem dúvida, pois do contrário estaremos agindo como loucos que pretendem ser alguém sem conhecer com totalidade a si próprios.
Por vezes tenho a nítida impressão de que tratamos a mente apenas como um apêndice de nós mesmos, apenas como um acessório. Se fosse essa a realidade, assim como tiramos os óculos ou a dentadura, tiraríamos também a cabeça e a colocaríamos sobre o criado-mudo na hora de dormir!
Não podemos viver apenas como um corpo, "não só de pão vive o homem" já dizia há dois mil anos um dos homens mais sábios que caminharam sobre este planeta. Temos duas dimensões em nossa existência como seres vivos conscientes: uma corporal e outra mental, ambas devem ser alimentadas e satisfeitas, ambas devem receber igual oportunidade de crescimento. No oriente, por questões predominantemente culturais, milhões de pessoas privilegiam a mente em detrimento do corpo, o resultado é de uma grande massa de sábios e meditadores famintos, doentes e miseráveis... No ocidente também por questões predominantemente culturais, milhões de pessoas privilegiam o corpo em detrimento da mente , tendo como referência um modelo de corpos atléticos, sarados, bem alimentados(mas não necessariamente bem nutridos), preocupados com terapias milagrosas que prometem a juventude, a beleza e o equilíbrio do corpo, apenas do corpo !!! O resultado: uma multidão de obcecados por pílulas de anti-oxidantes, por uma pele sem rugas, por uma "máquina corporal" (que definição deliciosamente cartesiana!) bem lubrificada e regulada" e cercada de parafernálias tecnológicas que bem representam a abundância do mundo ocidental...não que isto não seja positivo para o corpo, mas o problema é que no meio de toda essa abundância "técnico-corporal" encontramos, com uma freqüência maior do que desejaríamos, um homem mentalmente pobre, ausente de "alma", perdido...sem saber quem é, porque é e o que realmente quer, sentindo-se talvez como apenas mais uma peça na engrenagem dos conceitos, modelos e concepções fragmentadas e incompletas que a sociedade escolheu para ele ( e ele passivamente as aceitou), inclusive esta que insiste em "esquartejar" o homem, recusando-se a vê-lo como realmente é: uma totalidade.
(*) Cláudio Portella é médico com 15 anos de experiência em saúde ocupacional e exerce no momento, a subsecretaria de serviços médicos e a vice-presidência da comissão de qualidade de vida do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios.