Rede Solidária Anjos do Amanhã - Juiz Renato Rodovalho Scussel
Prestes a atingir a maioridade, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) representou expressivo avanço para o Brasil, sendo considerado uma das legislações infanto-juvenis mais modernas do mundo. Serve, inclusive, de modelo para outras nações. Longe de conquistar a unanimidade de especialistas em direito da infância e da juventude, há pelo menos o consenso de que o ECA veio para legitimar que crianças e adolescentes não são seres ?menores?, mas sujeitos de direitos, merecedores de atenção prioritária do Estado, da sociedade e da família, na garantia de acesso a esses direitos.
Ao assumir a Vara da Infância e da Juventude (VIJ) do Distrito Federal em 2002, compreendi a importância de efetivar esse paradigma para além da função jurisdicional. A práxis diária descortinou uma realidade consistente, em que medidas protetivas e socioeducativas aplicadas pela Justiça não sobrevivem sem que haja políticas públicas para sustentá-las. Proteger as crianças e os adolescentes do assédio das drogas, da violência, do abandono, da evasão escolar é proporcionar aconchego familiar, satisfazer as necessidades mais básicas, propiciar atividades esportivas, de lazer, de reforço escolar e de capacitação.
Um terço da população brasileira está em plena infância e adolescência ? a maioria em situação de vulnerabilidade social. Constitui, então, prioridade absoluta assegurar o encontro entre os direitos e a juventude. Guiado por esse propósito, nasceu em setembro de 2006 o projeto Rede Solidária Anjos do Amanhã. Trata-se de teia de proteção formada por voluntários da sociedade civil, empresarial e pessoas físicas interessadas em emprestar talentos, doações ou um pouco de tempo em sua agenda, tendo como destinatários meninas e meninos atendidos pela VIJ ou vinculados às instituições parceiras da Rede Solidária.
A Rede Solidária Anjos do Amanhã realiza a interseção das necessidades infanto-juvenis e a vontade dos que conhecem o significado da responsabilidade social. Muito além do mero assistencialismo, a Rede procura levar dignidade a crianças e adolescentes por meio do acesso a bens e serviços. A partir de maio de 2007, ganhou novo formato, com mais possibilidades de parcerias.
O voluntário se cadastra pelo site e encontra opções de credenciamento que mais de adaptam ao seu tempo ou disponibilidade. Atualmente, a Rede Solidária congrega cerca de 100 voluntários que atuam em prol de aproximadamente 3.800 crianças e adolescentes do Distrito Federal. São 51 Instituições cadastradas que se beneficiam das ações da Rede, que vão desde atendimento psicológico, dentário, aulas de reforço escolar, de futsal, artesanatos, bolsas de curso de línguas, até a divulgação do nome da Rede.
Como parte das comemorações dos 18 anos de vigência do ECA, neste 4 de julho, no auditório da VIJ, a Vara da Infância e da Juventude vai, em ato solene, reconhecer o trabalho de 80 parceiros, entre pessoas físicas, projetos, empresas e instituições, por meio da entrega de certificados e estatuetas representativas do símbolo da Vara. O momento será mais do que oportuno para reafirmar perante a sociedade a importância de que o amanhã já chegou para crianças e adolescentes.
Convido todos a refletir sobre o poema da chilena Gabriela Mistral, que diz que o pior crime é abandonar as crianças, pois muitas das coisas de que precisamos podem esperar. A criança não pode. É exatamente agora que seus ossos estão se formando, seu sangue é produzido e seus sentidos estão se desenvolvendo. Para ela não podemos responder ?amanhã?. Seu nome é ?hoje?.