Branquitude
Servidora do TJDFT Aline Sette Brüggemann
Sou uma mulher branca em um país (e mundo) muito racista. Demorei a perceber isso. E, claro, esse é um dos privilégios da minha branquitude. Minha cor nunca foi apontada para nada. Nunca acompanhou qualquer qualificação minha. Não sou “a branca bonita”, ou “a branca que trabalha no Tribunal do Júri”. A raça branca é presumida. Entretanto, a raça branca diz respeito a apenas 13% das pessoas no planeta. Ou seja, 87% das pessoas são excluídas do que é tomado por padrão.
Quis fazer o curso a promoção da igualdade racial no TJDFT e participar do no II ENAJUN porque, durante muito tempo, fui uma dessas pessoas que acreditava que o racismo havia ficado na história e que não era dívida dos “brancos atuais”, já que “eu nunca havia escravizado ninguém”. Espero poder culpar a tolice da adolescência pela visão de mundo estupidamente restrita que eu tinha. Me via como padrão. Acreditava, de verdade, que todos haviam tido as mesmas oportunidades que eu. Nunca havia parado para pensar na realidade “dos outros”.
Não sei bem quando isso mudou. Mas cresci e amadureci. Hoje, percebo que o racismo é um problema atual e, como disse Lia Vainer Shucman, se é um problema atual, é um problema de todos. E preciso me qualificar para o debate.
Não é normal que eu possa contar nos dedos o número de colegas negros que tive na escola (em todos seus níveis – Fundamental, Médio, Superior e Especializações). Muito menos que possa usar uma única mão para nomear os professores negros que me deram aula. Ao mesmo tempo, quantos do pessoal da limpeza, da zeladoria, do almoxarifado... não eram negros?
E isso se repete em nosso ambiente de trabalho. Quantos colegas negros nós temos? E, desses, quantos ocupam cargos de chefia? Com quantos magistrados negros você já teve contato? E por que essa disparidade não é embasbacante?
Não importa que eu não acredite que não sou racista. Sou branca, meu cabelo é liso. Meu fenótipo é exatamente aquele visto como adequado. Nunca me falaram que “não dá pra ser servidora com esse cabelo”. Nunca associaram a qualidade do meu trabalho, ou falta dela, à minha cor (talvez ao meu gênero, mas nunca à minha raça). Nunca duvidaram da minha identidade como servidora ao adentrar o fórum, mesmo que eu estivesse sem meu crachá.
Neste nosso mundo racista, independentemente do meu querer, desde que nasci, recebi diversos privilégios advindos da minha cor. Já comecei na frente de mais de 50% da nossa população. Não fui eu que quis, mas isso não importa para o racismo.
Mas, então, o que posso fazer? Bem, o mínimo que nós brancos precisamos entender é que é necessário adotar atitudes antirracistas. Como bem pontuou Desmond Tutu, “se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”. Isso significa parar de diminuir atitudes racistas nossas e de colegas ao dizer que “foi apenas um mal-entendido”, ou “é coincidência que ele era negro”.
Vamos parar com esse discurso hipócrita. Tais situações jamais teriam ocorrido contra pessoas brancas. Um menino branco nunca teria sido confundido com um pedinte e retirado à força por seguranças de uma loja. Um jovem branco e seus quatro amigos brancos dentro do carro jamais seriam confundidos com bandidos e executados (111 tiros...) pela polícia. Um senhor branco, esperando o filho e a esposa em uma parada de ônibus, em nenhuma hipótese teria seu guarda-chuva confundido com um fuzil e seria assassinado por isso... E esses foram só alguns dos exemplos que me vieram à cabeça, sem a necessidade de qualquer esforço de lembrança, infelizmente.
Se virmos um colega sendo racista com uma colega negra, falando “silêncio na senzala”, não podemos nos calar. Isso não é uma piada. Isso é violência. Nossos irmãos negros passam por isso todos os dias. Não podemos fingir que não acontece. A violência começa no discurso, em atitudes pequenas, e se estende até acarretar o genocídio da nossa juventude negra. Isso é inconcebível e deve parar agora.
Já que temos esse privilégio e uma das consequências dele é que os brancos respeitam mais nossa opinião e prestam mais atenção ao nosso discurso do que ao de estudiosas negras, vamos usar isso a favor da luta pelo fim do racismo.
Vamos falar sobre racismo. Estudar, sim, porque, como disse Thula de Oliveira, não é dever de nenhum negro ficar alfabetizando brancos preguiçosos em relação a racismo. Os estudos estão aí, acessíveis a todos nós. Na internet, nas bibliotecas, nas revistas especializadas. Não faltam materiais para que entendamos o racismo estrutural (e estruturante) da nossa sociedade.
E, por fim, relembrando a professora Lia Vainer mais uma vez, o racismo é uma construção social, e, como tal, é aprendido. Se podemos aprender a ser racistas, podemos (e devemos) desaprender, aprendendo a ser antirracistas. E, como brancos que fruíram de incontáveis privilégios advindos da nossa raça, é nossa obrigação juntarmo-nos aos irmãos negros nessa luta, como aliados brancos na luta antirracista, e educar aqueles que ainda não abriram os olhos para essa cruel realidade.
*Analista Judiciária do TJDFT