Atenção e empatia: atendimento psicossocial em tempos de pandemia
Analista Judiciária do TJDFT Michelle Moreira de Abreu Tusi, psicóloga do Posto Psicossocial da VEPERA
A pandemia de Covid-19 tem produzido repercussões, não apenas de ordens biomédica e psicológica, mas também tem acarretado impactos sociais, econômicos, políticos, culturais sem precedentes na história recente das epidemias.
Nossas respostas emocionais frente a esta ameaça são semelhantes. É esperado que estejamos todos frequentemente em estado de alerta, preocupados, confusos, estressados e com sensação de falta de controle frente às incertezas do momento, e com isso, quadros como ansiedade, depressão, perda da qualidade do sono estejam aumentados. Entretanto, a pandemia ameaça desigualmente os seres humanos e atinge diversamente países nos quais as diferenças socioeconômicas da população são abissais, como no nosso. Assim, a maneira de lidar com seus impactos finda por reforçar a desigualdade dessa ameaça.
Enquanto muitos de nós podemos nos proteger em casa, fazer home-office e buscar estratégias elaboradas de cuidado mental, estabelecendo contato, mesmo que virtual, com familiares, amigos e colegas e investir em ações que auxiliem na redução do nível de estresse agudo (meditação, leitura, exercícios de respiração). Recursos esses extremamente importantes e úteis. Outros de nós, muito mais numerosos infelizmente, já eram e continuam sendo cerceados física ou simbolicamente por contextos de violência, lutam pela sobrevivência e são obrigados a irem para as ruas buscar o sustento de suas famílias, submetidos-se a riscos de contaminação e a condições de discriminação e injustiça social.
Grande parte destes brasileiros vivem na informalidade e não conseguem dela sair e outros muitos já perderam seus trabalhos ou sofreram redução salarial. Frequentemente, a renda é parca para alimentação e para manter a higiene básica. Como, então, diante de tal realidade, cumprir os protocolos que reduzem o risco de contaminação? São eles os mais vulneráveis face à epidemia, mas antes, os mais vulneráveis socialmente – delineados na intersecção dos eixos raça, classe e gênero.
Imaginem suas incertezas em tempo de pandemia. Trabalho? Futuro? Prisão? Cumprimento de medidas? Liberdade? É com essa população que o Posto de Serviço Psicossocial da VEPERA mantém canal aberto, agora na modalidade do teleatendimento. Por meio de uma linha telefônica, disponibiliza-se o acesso à estratégia mais importante de cuidado: a escuta. Não uma escuta terapêutica, pois não nos cabe fazer isso por telefone, mas, não menos importante, uma escuta especializada e de acolhimento.
Ouvindo seus medos e dúvidas sobre o cumprimento de suas medidas judiciais. Oferecendo orientações e encaminhamentos, quando possível. Compartilhando ambiguidades e inseguranças (nunca negando suas existências). Sendo claro e prático sobre como tem funcionado a Justiça nesse momento tão desafiante para a convivência humana. Muitas vezes isso é tudo que se pode oferecer, muitas vezes isso é tudo de que se precisa, quando tudo é tão incerto.
Michelle Moreira de Abreu Tusi é analista Judiciária do TJDFT e atua como psicóloga do Posto Psicossocial da Vara de Execuções das Penas em Regime Aberto - VEPERA.
Clique aqui e confira outros artigos de magistrados e servidores do TJDFT.