Diário de uma mediadora
Servidora do TJDFT Eva Cristiane Afonso de Oliveira
Trabalhar com pessoas e para as pessoas é um ensinamento a cada dia. No tempo em que não se conhecia o termo COVID-19, trabalhava todos os dias de forma presencial. Tinha ali o calor humano das partes, pois o serviço prestado era em processos de pensão alimentícia, divórcio e guarda. Esses processos tratam de forma direta com os sentimentos, tanto é que, por vezes, tinha que acalmar os ânimos daqueles que se exaltava em meio à audiência. Sentimentos de fúria, choro e muitas vezes de perdão eram comuns, diante das diversas situações que vieram a ter um fim, muitas vezes não desejado por uma ou outra parte.
No fórum, onde as partes eram recebidas para audiência, você deparava com pessoas bem vestidas, conforme suas possibilidades, perfumadas, penteadas, por vezes, bem maquiadas. Mas quem vê cara, não vê coração, já dizia o provérbio. Já tive relatos de partes que para estarem nas audiências das quatorze horas, precisaram sair de casa, às dez, pois, só passava ônibus pela manhã e outro à tarde, e quando ela me falava isso eu perguntava que horas sairia o outro e ela me falava que às 16, então eu procurava acelerar os trâmites para não tornar a vida da parte mais complicada.
Todos os dias era um dilema diferente para se pensar, enquanto de um lado, mães que precisaram deixar os filhos com vizinhos para estarem ali, pois se levasse, teria que arcar com a passagem, outros que na audiência de divórcio falava que não queria está ali, pois ainda amava a outra parte e queria uma oportunidade para tentar mais uma vez. Amores e sonhos que um dia foram compartilhados, mas com os problemas do dia a dia se esvaíram. Quantos sentimentos em uma só tarde para se extrair dali. Quantas frases de reflexões vindas das próprias partes que eu tiro para minha vida.
Teve um dia em que um pai, após um acordo de um processo de exoneração, lembrou ao filho, que a exoneração não o fazia menos pai, mas, que ele continuaria a dar todo suporte que já vinha dando ao filho, que o processo seria apenas uma questão burocrática em relação ao seu contracheque. E, assim, eles se abraçaram. Vi ali mais um ensinamento a levar para vida.
Com o advento da pandemia, passou-se a ser realizada audiência por meio de vídeo conferências. Esta mediadora, todos os dias, entra em diversos lares. A vida real é vista. O cenário de escassez e simplicidade, que faz parte da maioria das partes dessa região, exige o olhar acolhedor do mediador. Procuro já recepcioná-los com um sorriso, interajo um pouco antes de começar a formalidade da audiência, desta forma deixá-los se sentirem confiantes em tomarem suas próprias decisões.
E assim prossigo, todos os dias, conhecendo inúmeros tipos de pessoas e pensamentos, experiências e sonhos. Conheço do falante ao ouvinte, do tranquilo ao mais fleumático, do otimista ao sem muita perspectiva, e por aí vai. Outro dia ouvi de uma parte: Quem tem vontade, já tem a metade, que, independentemente da situação, se tivermos fé e coragem de enfrentar a situação e de muda-la, já é meio caminho andado. Não trabalhamos apenas com processo, mas com vidas e sentimentos. A empatia é fundamental. Ensinamentos nosso de cada dia. Amém.
Eva Cristiane Afonso de Oliveira é servidora do TJDFT, lotada na Primeira Vara de Família e de Órfãos e Sucessões de Planaltina.