Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

O caminho tortuoso da empatia

por Juiz Lucas Sales da Costa — publicado 26/02/2024

Nem sempre foi tão ruim. Divergências e desacordos são inerentes ao surgimento e à trajetória das civilizações. A existência de comunidades ideologicamente polarizadas e marcadas por profundas diferenças nos espectros social, político e econômico não constitui retrato singular dos dias de hoje. Divisões que atingem o tecido social e mexem com o cotidiano das instituições também não nasceram ontem nem terminarão amanhã.

Clivagens e dissensos estão registrados nas páginas da história das comunidades e dos sistemas de poder, da América à Oceania. É impossível deixar de relembrar os milênios de duração da escravidão ou mesmo o fato de que, até tão pouco tempo, admitir o voto feminino era visto como algo absurdo. Entre harmonia ou conflitos, paz ou desesperança, a humanidade conseguiu evoluir a partir da superação de injustiças e desigualdades. Sempre fomos seres muito diferentes.

Consensos e unanimidades, na verdade, sempre foram muito raros e, quando eclodem, normalmente se escondem na abstração, na forma ou na aparência, prejudicando os atributos do real e do sincero.

As coisas hoje se tornaram algo diferente. O ato de divergir pode até não ter mudado de figurino, mas a conduta de conviver com o diferente, para muitos, transformou-se quase em sacrifício. Tinha que ser dessa forma?

Na família, no trabalho ou no lazer, cidadãos se isolam em ilhas e bolhas, prevenindo-se do contato com os outros e selecionando, com rigor e a dedo, aqueles com quem andam, com quem falam e com quem devem compartilhar passos mínimos do dia a dia.

Pais e mães sentem-se profundamente incomodados em relação ao convívio dos filhos com aqueles de distinta visão política. Nas rodas sociais, o convencional “nome e idade?” é substituído pelo “em quem você vota?”, formando-se um porcentual considerável de cidadãos reativos à simples possibilidade de seus familiares estabelecerem relacionamentos afetivos com alguém de partido político oposto. Isso seria normal?

É claro que os avanços tecnológicos e a onipotência das redes sociais intensificaram esse fenômeno: a sociedade moderna é também a sociedade das massas e da informação. O grau de amplitude e instantaneidade da circulação de mensagens e notícias atingiu níveis imensuráveis, e tudo chega, no mesmo instante, em todos os lugares.

Alguns impactos produzidos por essa dinâmica permanecem, porém, pouco estudados. Se a democracia não se resume ao governo do voto e à contagem aritmética traduzida pelas eleições, vale perguntar: como inserir falas e discursos e possibilitar embates e deliberações no interior de comunidades onde os grupos sociais impedem ou simplesmente não desejam influências e interlocuções? Quando o “não quero conversa” prepondera, como enfrentar a redução da vitalidade democrática e os riscos à própria convivência social?

Conversas e debates não configuram desperdício de tempo, servindo de lastro para as reformas socialmente desejadas. Uma sociedade que não dialoga ou não quer dialogar é um problema. Nesse cenário, a proteção de direitos fundamentais também resta debilitada, já que a democracia se volta a realizá-los. 

E não são poucas as consequências. Os núcleos básicos da sociedade, a saber, a família e o trabalho, perdem força, implicando o crescimento dos conflitos e, por consequência, a tão falada judicialização, fonte de críticas às instituições. O excesso de processos nunca foi culpa do Poder Judiciário: mais do que isso, o dilema é sociológico e cultural. O que fazer?

Já escrevi, em outro momento, sobre a necessidade de resgatarmos a valorização da empatia. O raciocínio pode soar trivial, mas permanece relevante. O esforço e a aptidão para imaginar-se no lugar da outra pessoa, compreendendo-lhe pensamentos, condutas e inquietações, não representam somente um gesto de civismo e consideração. Você nunca entenderá o outro até que tente considerar as coisas do ponto de vista dele.

Cuida-se, estou convicto, de um processo moral de amadurecimento do próprio espírito de humanidade. Altruísmo e fraternidade são algo enriquecedor e podem fazer a diferença em tempos assim tão complicados. A distância e o silêncio são as armas preferidas de quem pretende manter as coisas do exato jeito como estão: “deixa como está para ver como fica”.

Ninguém gosta de abrir as páginas dos jornais e visualizar colapsos, guerras, indiferenças e desacordos ditos como insolúveis. Somos muito mais do que isso. Em belíssimo livro, Rutger Bregman ensina: “Nós, humanos, diferenciamos tudo. Temos nossos favoritos e cuidamos mais dos nossos. Não há nada de que se envergonhar – faz parte de nossa natureza, mas precisamos também entender que os outros, os estranhos mais distantes, têm famílias e pessoas que os amam. Que são tão humanos quanto nós”.

Entre lutas, disputas e separações, nunca é tarde para escolher a empatia, a compaixão e a deferência. Para o desgosto dos pessimistas, a história já revelou o quanto a força e o empenho das mobilizações associativas foram essenciais para a evolução construtiva das civilizações. Somos muito pouco isoladamente e sempre dependemos do fortalecimento, da harmonia e da cooperação, e não será diferente dessa vez.