Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

Algumas reflexões sobre a questão do conhecimento em Platão

por Desembargador Waldir Leôncio Júnior — publicado 01/12/2025

Desembargador Waldir Leôncio Júnior

Presidente do TJDFT; Mestre em Direito pela UFPE

2. Platão

2.1 O conhecimento em Platão relacionado com a idéia de episteme (conhecimento verdadeiro, pertencente ao mundo das idéias ou das formas).

PLATÃO, discípulo de Sócrates e fundador da Academia, escreveu vários livros sob a forma de diálogos em que reproduz os ensinamentos do mestre, que, ao mesmo tempo, é o personagem central de sua obra.

Platão, de família nobre (descendente, pela linha materna, de Sólon, célebre legislador e considerado um dos “Sete Sábios da Grécia”), tentou a arte e os esportes antes da filosofia. Mas ao conhecer Sócrates redirecionou sua vida e deu seqüência à filosofia. Percorreu o Oriente e teve acesso à Escola dos Mistérios. Identificam-se nele duas filosofias: esotérica (filosofia dirigida a seus discípulos) e exotérica (filosofia dirigida ao público de fora). Essas influências ficam evidentes em suas obras. Na mais conhecida (A República), trata da filosofia moral, da ética, da estética, da história, da alma, do destino e da origem do homem, da cidade, do filósofo, dos militares, artesãos, agricultores, professores ...

A filosofia platônica é identificada como idealista, porque para seu modelo filosófico o que se tem aqui, neste mundo, é mero reflexo de um mundo real que se encontra no mundo das idéias. A idéia é determinante no conhecimento de Platão. Postas além do mundo físico e separadas das coisas, as idéias constituem princípio inteligente, causa formal e final, do verdadeiro mundo, o Mundo das Idéias.

No célebre Mito da Caverna (Livro VII da República) fica bem clara a lição platônica segundo a qual o mundo das idéias é o mundo do bem, belo, verdadeiro, real, perfeito; o mundo sensível (aparente), é uma cópia imperfeita do mundo das idéias.

Com Platão, inicia-se uma nova dialética7, que vai constituir um dos pilares da filosofia e uma das bases do conhecimento. Sua dialética é ‘a arte de encadear proposições, desde os dados sensíveis até o conhecimento de noções abstratas’. A dialética ascende, vai do sensível até o mundo das idéias. E a descendente traz a vida e a prática diária do que se aprendeu do ser, do amor, da justiça, das relações políticas no mundo inteligível. Assim, para Platão, conhecer não é apenas chegar à verdade, mas também reecontrar o ser, a justiça, o bem, que devem, depois de conhecidos, transformar os atos de nossa vida8.

Em resumo, pode-se dizer que para Platão, a dialética consistia uma forma de dialogar (discutir) para encontrar a verdade9.

Inicia-se, também, com Platão, uma filosofia “em ação” (de que já falava Pitágoras (que também nada deixou escrito e era igualmente místico) em seus “Versos de Ouro’.

Como Pitágoras, reputava o conhecimento da matemática indispensável a quem quer aprender filosofia. Mandou escrever uma faixa na Academia, na qual deixava claro o recado: por aqui não passa quem não sabe geometria.

Platão teve seus desencantos e sofrimentos. Chegou a ser negociado como escravo e foi resgatado. Seu pensamento evoluiu. Entre A República e As leis (obra da maturidade), percebe-se a evolução de alguns conceitos.

2.2 Ética e razão são imbricadas na filosofia de Platão.

Como pitagórico, Platão tinha uma concepção daquilo que hoje se poderia dizer “transcendentalidade”. Os homens, na essência, são transcendentais. Os homens detêm conhecimento transcendental (teoria da reminiscência das idéias). Isso conduz a uma interligação das subjetividades que se encontram e constituem uma realidade objetiva. Confira-se:

Mas não basta apenas um nexo estrutural que unifique as subjetividades. É necessário um princípio dinâmico de interação entre os seres humanos, e entre humanos e as idéias, já que a ascensão da alma exige um movimento da mesma. Esse princípio é Eros, que torna dinâmica a relação entre subjetividade e intersubjetividade, o que possibilita o acesso à objetividade.

A ética é a praxis da razão (theoria). É o resultado de uma escolha, de uma opção por um caminho, pelo caminho da com-vivência. Com-viver é bem-viver. Bem-viver é viver-com. Não se trata de joguete de palavras inventadas. Mas essa implicação cíclica e recíproca só é possível porque é regida pelo Eros, pelo amor. O amor é bom, quer o bem, quer a harmonia, ainda quando esta decorra de um confronto (dialética), pois si vis pacem, para bellum.

A razão poderia levar a outros resultados, e algumas vezes conduz, que não à ética. Isso ocorre quando prevalece o egoísmo, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, é um egoísmo irracional, porque o homem é social por natureza, vive em comunidade (maior ou menor, família ou sociedade), logo, não vive só para si, por si, nem em si; vive para si e para os outros: COM-VIVE. A com-vivência aquece, conforta espiritualmente, gera uma sensação de segurança que, de outra forma seria impossível. O amor une. Como ensina a sabedoria popular, “só o amor constrói”.

Como diz Montaigne: “Não há nada tão belo e legítimo, como o homem fazer bem e de acordo com o que é prescrito”, em outras palavras: agir eticamente, conforme a razão; ou agir conforme a razão, eticamente.

No livro V da República, Platão situa o filósofo como “amigo do saber” e “amigo da opinião”. Com isso, indica que filósofo não é apenas quem é “membro de uma escola de pensamento entre outras escolas, equipado com doutrinas expressas em fórmulas convenientemente sistematizadas”11 , mas “o homem perfeito, que una na sua pessoa todas as virtudes humanas que possam conceber-se”12.

2.3 A função da filosofia, a partir da concepção platônica.

Platão fala de uma filosofia transformadora, a qual está bem nítida no mito da caverna13. A experiência do prisioneiro que sai da caverna, conhece uma nova realidade, percebe que as idéias anteriores precisam ser revistas, revê suas idéias anteriores, lembra-se dos companheiros que ainda estão afetados por elas, e decide retornar, mesmo sabendo que pode ser desacreditado por eles e tido por louco e até mesmo maltratado. Pensa no bem, na missão renovadora do filósofo e aceita o desafio.

As duas dialéticas, ascendente e descendente, operando no mesmo plano, mundo das idéias, permitem que conceitos sejam sempre reelaborados e que, também, possibilitem uma transformação da vida, como ocorre com a prática do bem, do bom e da justiça.

Muito tempo depois de Platão, Kant desenvolve um pensamento próximo, com as críticas da razão pura, da razão prática e da razão de julgar.

Enfim, “A construção do conhecimento constitui, assim, no platonismo, uma conjugação de intelecto e emoção, de razão e vontade; a episteme é fruto da inteligência e de amor”.