Algumas reflexões sobre a questão do conhecimento em Aristóteles
Desembargador Waldir Leôncio Júnior
Presidente do TJDFT; Mestre em Direito pela UFPE
Comentários sobre aspectos das filosofias socrática, platônica e aristotélica que influenciaram a teoria do conhecimento ocidental.
3. Aristóteles.
3.1 A admissão da verdade como sendo algo exterior.
Discípulo de Platão, afastou-se da linha de pensamento do mestre, o qual depois criticou severamente e fundou o Liceu.
Autor de pensamento rigoroso, legou, como Platão, vasta obra, a qual foi recolhida pela tradição filosófica. Com ele se inaugura uma nova filosofia, que mais tarde foi “batizada” de realista.
A filosofia aristotélica é rigorosa e sistematizadora. Possibilita o desenvolvimento de uma ontologia da natureza (physis) e da essência. Mais tarde, via resgate pelos filósofos arábes, a filosofia aristotélica fornece as bases para os estudos, principalmente os ontológicos, desenvolvidos pela patrística e pela escolástica, ao ponto de cos comentadores chegarem a sustentar que Santo Tomás de Aquino “cristianizou” Aristóteles, como aliás, Santo Agostinho o tinha feito em relação ao neoplatonismo.
Foi preceptor de Alexandre “O Grande”, da Macedônia, com quem teve início uma nova era para a Grécia e para o mundo: a helenística.
Como Platão, ocupou-se de quase todos os temas de sua época: política (A política), ética (Ética a Nicômaco), pensamento (Metafísica e sobretudo Organon), os mais conhecidos.
Desenvolveu a lógica, a retórica e a poética, inaugurando uma nova dimensão no relacionamento entre conhecer, pensar e expressar.
Platão e Aristóteles inspiraram – e continuam inspirando – várias escolas filosóficas, como estoicismo, neoplatonismo, epicurismo, a escolástica ...
Para Aristóteles, segundo o texto de Bornheim15, na Metafísica são referidos “diversos aspectos do filosofar”: a) o desejo, b) o prazer em si de filosofar por filosofar, independentemente de uma aplicação prática e “interesseira”, c) a admiração e d)a consciência da ignorância. Vamos a eles:
a) O desejo:
Nós, homens, criaturas de carne e osso, somos movidos por desejos e por necessidades. Nesse sentido, Freud mostra bem em: O Mal-Estar da Civilização16. O desejo é abertura, porta de entrada. Deseja-se o que é agradável não somente aos sentidos, mas, sobretudo o que fica no espírito. O homem tem uma curiosidade natural que se manifesta ao longo da
vida. A criança pergunta por tudo, tem curiosidade, quer saber. Essa, realmente, é condição elementar da filosofia.
Na Grécia, essa satisfação de conhecer era atendida com um ingrediente muito particular, que favorece muito o conhecimento: a linguagem; o grego é um idioma em que as palavras conseguiam (no grego antigo, sobretudo) aproximar o pensamento da coisa pensada – comunicada: a coisa-em-si.
Por outro lado, quem não deseja conhecer, quem sente tédio em estudar, aprofundar-se nos estudos, pensar mais elaboradamente, realmente não se agrada da filosofia. Os “práticos”, os acomodados não se agradam dela (certamente até porque não a conhecem; rejeitam-na por ignorância).
b) O prazer em si de filosofar por filosofar, independentemente de aplicação prática e interesseira:
Esse caminho é conexo com o anterior. O homem não vale pelo que possui. Isso é lugar-comum aceito sem qualquer dificuldade. O homem vale pelo seu interior. O homem rico interiormente é, geralmente, sábio e satisfeito com a sua riqueza, a qual, ademais, distribui com as pessoas.
Homero deixou uma lição que é decantada pelos poetas (Cavafy, por exemplo, na modernidade17): o importante não é chegar a Ítaca (no retorno de Tróia), é o prazer de estar a caminho. A aventura do retorno (no caso de Ulysses), a superação das adversidades, já vale por si18. Claro, é evidente que a chegada a Ítaca é importante, como é importante que a filosofia contribua para que o homem se sinta melhor e viva melhor consigo e com os seus semelhantes, individual ou coletivamente, mas principalmente no último caso.
c) a admiração:
Nesse ponto, Aristóteles, na Metafísica19 é insuperável. O que dizer além do que ele disse? Não sei. A admiração é, insisto no termo, abertura do espírito para que o ser se manifeste. Quem quer conhecer, pergunta e contempla; em resposta, ouve, vê, sente, percebe, compreende. Admirar é atitude também de humildade (e, portanto, já é uma sabedoria) e de amor (quem admira aceita o ente admirado como ele é, não quer, modificá-lo). Admirar é saber apreciar.
d) a consciência da ignorância:
A filosofia é incompatível com o dogmatismo, com as explicações fáceis, com o senso-comum. Claro que o conhecimento pode ser acumulado, como ocorre quando se examina um objeto com o auxílio de lentes. Mas o uso das lentes só ocorre por quem considera insuficiente o conhecimento sobre o objeto e quer conhecê-lo melhor.
E quanto mais se conhece, mais se dá razão a Sócrates: "Só sei que nada sei". E o saber que não sabe, em vez de levar o filósofo à desistência, motiva-o.
Há, enfim, certo “platonismo existente em Aristóteles”. Essa identificação é uma constatação maravilhosa! Por mais que Aristóteles “renegasse” o Mestre (isso fica bem nítido na Metafísica20, s.m.j), levou consigo a sua influência. E essa influência é nítida no que concerne ao eixo central de sua filosofia: o conhecimento. O ser problemático das coisas sensíveis de Aristóteles é fruto dessa influência, pois “o verdadeiro ser é colocado em questão”21 (p. 55). O “ser conceito" socrático, em Aristóteles manifesta-se no universal: "surge no intelecto sob a forma de um conceito”22.
Aristóteles sabe que a verdade é fácil e difícil de se manifestar: “ninguém é capaz de atingir completamente a verdade” (Metafísica, Livro II)23. Pertence a todos e a ninguém; apresenta-se de modo indireto (verdades derivadas) e é encontrada pela via das causas primeiras. Nessa tarefa, parte-se da sensação, passa-se pela memória e com o auxílio da ciência e da arte angariadas pela experiência, tenta-se alcançar os universais.
O método aristotélico é o método indutivo; o método científico da busca das causas primeiras (causas em quatro sentidos: a. Causa eficiente [princípio da mudança]; b. Causa material [aquilo do qual algo surge ou mediante o qual chega a ser]; c. Causa formal [a idéia ou paradigma e é como a essência em que é antes de ter sido]; d. Causa final [ou o fim, a realidade para a qual algo tende a ser])24.
3.2 A importância da noção de movimento da teoria aristotélica, sobretudo no que se refere à questão do conhecimento.
Esclarece Reale que "o movimento é um dado de fato originário, que não pode ser posto em dúvida". E mais adiante:
O movimento ou mudança em geral é, precisamente, a passagem do ser em potência ao ser em ato (o movimento é o ato ou a atuação do que é em potência enquanto tal, diz Aristóteles [cf. Física e Metafísica]25.
Para ser fiel ao pensamento de Aristóteles, vou transcrever, como o fez o mestre REALE (e se ele que é filósofo o fez, por que eu haveria de ser diferente e arriscar-me em terreno perigoso?), as palavras textuais do estagirita, na Física e na Metafisica (K9, b 55 ss):
O ser ou é ato ou é potência, ou é, ao mesmo tempo, em ato e potência: e verifica-se isso, seja pela substância, seja pela qualidade, seja pelas restantes categorias. Não existe nenhum movimento que esteja fora destas coisas: de fato, mudança tem lugar sempre segundo as categorias do ser, e não há nada mais que seja comum a todas e que não entre numa única categoria. Cada uma das categorias, em todas as coisas, existe de dois modos diferentes [...], de maneira que deverão existir tantas formas de movimento e de mudança quantas são as categorias do ser.
Essas profundas observações do filósofo peninsular encontram fecho no termo "causa'':
Quando Aristóteles afirma que tudo o que ocorre, ocorre a partir de algo, que é mister que todo o movido se mova a partir de algo, ele sustenta, com efeito, não haver movimento sem causa, mas isso não equivale a afirmar um determinismo de tipo mecânico ou puramente eficiente. Por outro lado, ao afirmar que, quando ocorre, ocorre por algo, Aristóteles refere-se explicitamente à noção de substância27.
Bem, os textos de Aristóteles são inquestionavelmente densos. Considero-os fáceis e difíceis ao mesmo tempo (e não estou em contradição, afinal aprendi a admitir isso com o próprio estagirita). Tanto que tenho a impressão de que eu poderia dizer o que Aristóteles diz; porém, estou certo de que não conseguiria. Aristóteles é, afinal, simples, objetivo e direto. É fácil e extremamente difícil ser simples, objetivo e direto.
Referências
A BÍBLIA sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
ARISTÓTELES. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os pensadores.)
ARISTÓTELES. Metafísica. 2. ed. Porto Alegre: Globo, 1969.
BASSO, Maximino O pensamento grego a partir de Sócrates. Brasília: Universa, [1997]. Filosofia e Existência. Eixo Temático I - A atividade Filosófica UEA-02.
BORNHEIM, Gerd. Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais. Porto Alegre: Globo, 1963.
BREHIER, Emile. Historia de la filosofia. 5. ed. Madrid: Sudamericana, 1975.
CAVAFY, Constantin. Poèmes. Apresentação crítica de Marguerite Yourcenar. tradução do grego por Marguerite Youcenar e Constantin Dimaras. [Paris]: Gallimard, 1999. p. 102-103. (Collection Poèsie).
FERRATER MORA, J. Dicionário de filosofia. São Paulo: Loyola, 2001. t. 2.
FREUD, Sigmund. O mal-estar da civilização. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
HAVELOCK, E: Preface to Plato. Oxford: Blackwell, 1963.
HOMERO. Odisséia. 3. ed. Tradução de Manuel Odorico Mendes; Edição de Antônio Medina Rodrigues. São Paulo: Ars Poética; Editora da Universidade de São Paulo, 2000.
OLIVEIRA, Luiz Cláudio Batista. O conhecimento: a questão do conhecimento. Brasília: Universa, 1998. Filosofia e Existência. Eixo Temático IV - UEA02.
PLATÃO. A República. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1987.
PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Introdução à República. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1987.
__ . Fédon. Belém: Ed'UFPA, 1973.
___ . Teeteto. Belém: Ed'UFPA, 1973.