Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

Algumas reflexões sobre a questão do conhecimento em Sócrates

por Desembargador Waldir Leôncio Júnior — publicado 01/12/2025

Desembargador Waldir Leôncio Júnior

Presidente do TJDFT; Mestre em Direito pela UFPE

Comentários sobre aspectos das filosofias socrática, platônica e aristotélica que influenciaram a teoria do conhecimento ocidental.

I - Sócrates

Sócrates não deixou nenhuma obra escrita. Sua filosofia foi-nos repassada por Platão, seu discípulo. Como Sócrates, outros sábios e místicos também não deixaram obras escritas assinadas, como é o caso de Jesus Cristo, Buda, Confúcio, cujas doutrinas, no entanto, contrariando a máxima latina segundo a qual verba volant, scripta manet, não ficaram enfraquecidas. Mais que palavras, deixaram escrito no coração dos discípulos o exemplo de amor à verdade e à humanidade2.

A filosofia socrática reflete o ideal do homem grego de sua época, dedicado à sua cidade e obediente às suas leis, às quais se submete ainda que venha a perder a vida (é preferível morrer a ter a lei da polis descumprida!). É uma filosofia “local” que, por isso mesmo, é universal.

Nele, o homem é o centro do universo, o qual abrange os deuses, a pólis, a natureza, o pensamento, a moral, a ética, a política, o amor, a amizade, o bem, a morte, a verdade, a alma ...

Com a ironia socrática do “só sei que nada sei” e do “conhece-te a ti mesmo”, levada às últimas conseqüências, Sócrates legou à posteridade uma lição de uma filosofia ética revolucionária e renovadora; demolidora e reconstrutora3.

1.1 Como concebia Sócrates o fazer filosofia.

Filho de parteira, Sócrates engendrou o “método” “maiêutico”, por meio do qual pretendia provocar os interlocutores a ponto de neles próprios “parir idéias”. Amigo da verdade e

inconformado com as falsas verdades de seu tempo, praticou uma “filosofia investigativa”, reflexiva. A incapacidade de encontrar respostas completas e adequadas não era justificativa para que o homem se conformasse com a ignorância, ou se limitasse ao aparente, ao dado pela cultura de sua época. Nesse sentido, a Filosofia Socrática era “revolucionária”. A atitude filosófica de busca do conhecimento, da verdade, devia ser, ao mesmo tempo, uma luta constante contra as falsas aparências.

Sócrates era um ateniense participativo, atuante (participou de várias campanhas militares, com coragem e heroísmo, como no cerco a Potidéia, por exemplo). Amava sua cidade, seus concidadãos. Observava as leis de seu tempo. Odiava a mentira. Relacionava a busca do conhecimento com a busca do bem: “o agir mal é não saber”. Desprezava a arrogância. Defendia que os detentores do conhecimento deveriam compartilhá-lo gratuitamente com as outras pessoas, pois o saber é recebido gratuitamente e assim não deve ser “trocado” por dinheiro. Daí o seu furor contra os sofistas, a quem considerava “exploradores”.

Buscar o conhecimento, buscar a verdade, portanto, para Sócrates era uma questão de compromisso ético em direção a uma vida melhor para a comunidade.

A atitude filosófica era, então, para Sócrates, inconformar-se com o aparente, o superficial, o fácil, o imediato, o cômodo. Por isso Sócrates incomodou e foi acusado falsamente de corromper os jovens de seu tempo e de pregar contra os deuses.

1.2 O significado da expressão “só sei que nada sei”.

Segundo alguns historiadores, ao ser indicado por um oráculo de Delphos como o homem mais sábio da Grécia em seu tempo, Sócrates surpreendeu-se. Foi ouvir as pessoas reputadas sábias e observou nelas uma segurança no falar, cujo conteúdo, todavia, não era satisfatório e não resistia a uma investigação. Concluiu, então, que melhor que se julgar sabedor de algo e não sê-lo é ter convicção de que o que se sabe é insuficiente. Então, “quem sabe que não sabe, sabe mais que aquele que pensa que sabe e não sabe”, como era o seu caso. E porque se encontrava nessa condição de um investigador do conhecimento, amigo, portanto, da “verdadeira verdade”, aquela que não se circunscreve à aparência, era mais sábio que seus contemporâneos que, ao contrário, posavam de “donos da verdade”, como os sofistas.

Antes, portanto, de ser uma expressão de modéstia, é uma opção que representa uma atitude ética e filosófica, no sentido de abertura da razão; é também uma condição para a apreensão do conhecimento.

“Só sei que nada sei” é uma das muitas consequências do “Conhece-te a ti mesmo” do Templo de Apolo em Delphos.

1.3 A relação verdade e vida, no pensamento socrático.

Sócrates amava a verdade. Buscava-a constantemente. Ao ouvir as pessoas, indagava-as a ponto de levá-las a contradições e aporias. Não pretendia apenas vencer debates. Admitia ser “tagarela” e “conversador”, mas a tagarelice para ele consistia em conversas entre pessoas interessadas em aproximar-se da verdade; assim, poderiam viver melhor, o que foi considerado “intelectualismo ético”.

Para Sócrates, como, depois, Platão vai desenvolver em sua filosofia “especialmente nos diálogos FÉDON e TEETETO-, alcançar a verdade significa, alcançar o bem, a salvação da vida4. Não é difícil ver o quanto Sócrates estava certo e como o seu pensamento continua atual. A verdade está no todo, e este nem sempre é apreendido (como a fenomenologia e Dilthey deixam evidente). Por ser assim, já que o “captado”, o apreendido, o manifestado, é menor do que a coisa verdadeira, a busca da verdade corresponde à busca da vida. A palavra sagrada confirma: “conhecerás a verdade e a verdade vos libertará”.

A vida é verdadeira. Eu sei que existo! E porque existo, penso, sinto, vivo, quero saber a verdade. A verdade liberta para a vida. Enfim,

Em Sócrates, a verdade, o conhecimento, que até então eram colocados como que de fora para dentro do homem, agora tornam-se manifestações da consciência individual5.

A ruptura, ou revolução inovadora, do pensamento socrático consistiu em que:

Partindo da reflexão [...], o pensamento aplica-se primeiro ao conceito e depois, por intermédio deste, ao objeto propriamente dito6.

Sócrates então inaugura uma etapa no pensamento ocidental que vai desenvolver-se como Metafísica e fundar as bases do conhecimento racional que depois irá proporcionar a evolução das ciências e da Teologia.