Desembargador João Mariosi na Aposição da foto do Desembargador Lécio Resende
Ouça o discurso na íntegra.
"O saber a gente aprende com os mestres e com os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes" Cora Coralina.
Invocações.
Aqui reunidos para mais uma efeméride na existência do homenageado. Lécio Resende da Silva, um goiano de Pires do Rio, que foi Juiz nos extremos do antigo Estado de Goiás, adentrou a magistratura do Distrito Federal e Territórios, Presidente de dois Tribunais Federais, Corregedor de Justiça nos mesmos Tribunais e Governador do Distrito Federal, vê colocar sua foto entre os próceres deste Poder.
Vossa Excelência, neste ato singelo, tem a coroação dos louros de uma vitória merecida e não esperada. Surgiu da simplicidade de uma família e, com os próprios pés marchou pelas sendas, que o Grande Arquiteto direcionou. Olhando para o passado é uma linha reta que se aperfeiçoou e alongou, é o registro de uma concretização ímpar.
Coube-me, por sua escolha, fazer um monólogo pela pontualização do instante da fixação/lembrança de sua foto. Transformo, contudo, a cerimônia num diálogo plurissubjetivo, em que serei responsável pela quebra-do-silêncio. Passo a passo caminharemos da Escola Paroquial Sagrado Coração de Jesus, do Colégio São Francisco de Anápolis até a presente data, não me olvidando de sua participação no Congresso da juventude e da família em Belfast-Irlanda do Norte.
Como se observa, o périplo é longo, variado e distante. Daí o leit motiv trazido das mensagens de sua conterrânea Cora Coralina. Parece até que ela é sua fada madrinha, que conhece o seu destino e o comanda com o pequeno bastão da perseverança e da insistência.
Vossa Excelência teve o privilégio de ser educado, orientado e protegido neste mundo e na outra dimensão pela incansável Sister Thomasia - Madre Thomásia, que o escolheu com outros para uma permanente educação. Aquela que não somente ensina, mas convive. Madre Thomásia, segregando-o dentre seu familiares, profetizou que seria um homem de importância neste país. Isto já aconteceu pelos cargos que ocupou, bem como está in fieri até o horizonte eterno em que as coisas do céu são baixadas à Terra e as conquistas da terra são elevadas ao firmamento, como um óbulo ao único Deus.
Seus passos já foram céleres, lentos, demorados e algumas vezes desapareceram de sua meta, lá, porém, estava Madre Thomásia guiando com andar firme o seu caminho e com olhos brilhantes iluminando a dimensão de seu destino.
Já são 39 anos de magistratura, desde a longínqua Joviania-GO até o Conselho Especial deste Tribunal.
Com o cabedal que ostenta, na verdade, não é alguém que somente possui vasto conhecimento da história jurídica do Distrito Federal. Vossa Excelência, mais que isto, é o agente do desenvolvimento e incremento dos fastos desta unidade federativa. Sob seu comando, em diversas passagens e oportunidades houve land marks com identificação da origem- com a sua face. Com efeito, Com a concretização de uma sua idéia, o Tesouro Nacional deixou de ter despesa eleitoral de 28 milhões, o brasileiro com residência no exterior já não precisa fazer viagem de longa distância dentro do país que reside, sobretudo se houver resistência à movimentação interna. A obtenção do documento, que demonstra a obrigação do dever do voto, deixou os longos 3 meses de burocracia para sua consecução e já é obtido instantaneamente ou, no máximo, em 13 dias. Hoje essa agilidade e benesse são igualmente feitas e produzidas em todo o país.
O auto retrato de sua pessoa pode ser pinçado do elemento revelador e do fixador hipossulfito de sódio. Nestes dois líquidos, aquilo que era virtualmente um microcosmo da realização humana, passou para realidade transbordante da pessoa. Vossa Excelência o disse muito bem em março de 2008 na solenidade da entrega das obras do bloco A:
"Em toda parte há homens que arrostam com maiores obstáculos, não para conseguirem alguma coisa, mas porque alguma coisa os obriga a esforçarem-se, a abrirem caminho, a lançarem mão de todos os meios lícitos para chegarem ao seu fim.
Esses é que são os mais dignos, os vitoriosos.
...A realidade se encontra em nós mesmos, integra nossa constituição espiritual... Sonhei desde a infância ser juiz. Nunca aspirei posição mais elevada. Deus decidiu conceder-me postos mais altos."
Este auto retrato assemelha-se ao de Dorian Gray, de Oscar Wilde no final do século 19. Colocado nesta parede de dirigentes, fixa um instante - o da coroação e aperfeiçoamento do SER, no entanto, ao contrário do de Dorian Gray, Vossa Excelência é que rejuvenesce com o passar das eras. Isto porque todo realizador é um insatisfeito, que tendo obtido e entregue o máximo, elege outro objetivo, desbasta-o, debrida seus esporos e alisa sua imagem.
O quotidiano de magistrado revela sempre um prisma cultura da simplicidade do provo e também dos agentes públicos diretamente envolvidos no direito sistêmico. Eis o que ocorreu em seu início de carreira:
"Na comarca de Goiás, próximo à praça central, havia uma árvore muito antiga e frondosa que ameaçava cair.
Os criadores de gado do município não conseguiam mão-de-obra. Os homens disponíveis viviam custeados pelo trabalho das esposas, que eram professoras do ensino fundamental.
No final de cada mês esses homens eram vistos conduzindo as esposas à Coletoria Estadual, onde eram feitos os pagamentos dos vencimentos.
Eles se apropriavam do dinheiro das mulheres e, até a chegada do próximo mês, se reuniam pela manhã à sombra dessa frondosa árvore para apostar em rinhas de galo.
As mulheres, cansadas, pediram providências ao Juiz. Este determinou ao delegado que adotasse as medidas legais cabíveis.
O delegado informou a intenção de prender todos por vadiagem e que possuía solução alternativa.
O Juiz Lécio Resende, reiterou ao Delegado que adotasse o procedimento mais conveniente.
O delegado não pestanejou, mandou cortar a árvore e chamou todos os homens, informando-lhes que, caso continuassem com aqueles hábitos, seriam presos em flagrante por vadiagem.
Agradeceram as esposas, os fazendeiros e toda a sociedade local."
"Ainda no que diz respeito ao início da carreira judicial, V.Ex.a, muito meticuloso, como ainda o é, reuniu seus oficiais de justiça e deu-lhes a instrução de que os processos de réu preso viessem sempre com o instrumento do crime, para não haver perda ou desaparecimento e que eram preferíveis frases sem pontuação, do que com má colocação.
O oficial semi analfabeto trouxe-lhe certa feita um autor de estupro e disse a V.Exa: Memê, taí o abestado covardão que pegou a criança. Num trôci o instrumento do crime, pruquê num sei qual era, purisso trôci também a menina pru sinhoro escoiê o instrumento."
Ainda na mesma longínqua e rural comarca primeira, o mesmo oficial foi reforçar uma penhora.
Na volta relatou o acontecido:
"Memê (Meritíssimo), essença (Excelência), num pudi reforçá nada não, pruquê o abestado fugiu montado na fiança, deixando só uma mesa de comê véia de trêis perna."
V.Exa., questionou a respeito da fiança que não estava em lugar nenhum do processo e o operoso oficial de justiça respondeu, já era véia, mais era de trote muito bão (Fiança era o nome da égua).
A par desse lado hilário é evidente que, como Corregedor/Presidente, conseguiu diversos terrenos para alargar o atendimento do povo, de forma rápida e mais próxima de seus trabalhos e moradias. Adquiriu centenas de computadores, agilizando o andamento processual, instalou a sala de audiência eletrônica. Nunca deixou processo mourejar em seu gabinete.
São obras eloqüentes que falam por si, como se pessoas fossem já na forma adulta.
Cabe a Vossa Excelência as expressões do grandioso Michel Quoist:
"A estrada da tua felicidade não parte das pessoas e das coisas para chegar a ti; parte sempre de ti em direção aos outros."
Vossa Excelência, na espiral do Ascenso do mundo está sempre uma volta acima e pode, a cada instante, reproduzir este manual de conduta.
Veja, Excelência, que as verdades, todas elas, porque criadas, são relativas. Nos achamos livres de ir, vir e permanecer e estamos jungidos ao orbe pela Lei da gravidade. Queremos as alturas da lua e encontramos a lua dos oceanos. Para se chegar a ambas tem-se que colocar em outra dimensão. Como salientava Drumond de Andrade: eu não vi o mar, eu vi a lagoa. De fato as grandes coisas nos sugerem universalismos, as pequenas nos formam especialistas. Ninguém menor do que nossa dimensão corporal, pois é uma pequenez conhecida, sentida e sábia e porque nada temos neste hilemorfismo do depois, chegamos ao helênico: gnôti seautón (conheça-te a ti mesmo), conhecemo-nos e sabemos que nada sabemos. Se somos uma Essência mística de existência do criador, somente temos essa consciência com o reconhecimento cartesiano do penso, logo existo, e aquilo que é secundário e passageiro - a existência, é que nos leva a nós mesmos pela nossa essência. Donde mais importante que ter é ser.
Quando se fez o plano estratégico do bienal governo, V.Exa o disse de forma enfática e grandiloquente:
"Os homens só alcançam os objetivos se ousarem e se forem capazes de sonhar e trabalhar os sonhos."
"O futuro não é o lugar para onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando. E a atividade de criá-lo faz com que mude tanto o criador como seu destino".
São palavras de quem busca o "eu profundo", o novo singular modo de ser. Tudo isto é a sua identidade.
Com a aposição desta fotografia, na prática temos a personalidade em seu latino sentido de per+sonare. Ou seja emite energia para os que no futuro a observarem. São badalos dos sinos da realização; são ecos diacrônicos da construção de um Poder que se auto mantém.
V.Ex.a que já não é o mesmo da foto, pois ela fixou um determinado "in fieri" e poderá meditar:
"Afinal quem sou eu? Que sonhos magníficos sonhei? (mirum somnium somniavi) Qual meu lugar no desígnio do Mistério?
Nesse instante chegará ao seu interior - aquele que está inserido no imenso passado do big bang e que se perde dentro do inefável do Universo.
V.Ex.a verá que diante do princípio da indeterminação de Heisemberg somos uma luz, uma energia quântica condenada a estar só e a ser livre, como o ensina Jean Paul Sartre.
Com essa consciência do dever cumprido e na busca da perfeição começa a rasgar horizontes nas cortinas dos tempos e a criar novos sentidos da vida.
Verá que a felicidade não é um dom, mas uma aquisição; não é direito, mas uma obrigação, pois somente sendo felizes é que podemos transmiti-la aos vizinhos, parentes e amigos. Porque a transmissão é sincera, ela permanece como uma chama tão forte em nós mesmos, como na partilha que nem a divide, nem a esmorece.
Fique V.Ex.a certo de que um homem, com sua têmpera, jamais servirá de modelo de experiência, mas será uma seta a indicar a virgiliana promessa do sic itur ad astra - somente dessa maneira se atingem os astros.
Nesta viagem filósofo-jurídica, colocamos os pés no chão como Drumond novamente nos lembra de que o retrato é apenas uma moldura na parede. Acrescento que essa moldura é um portal que nos mostra e escancara os caminhos árduos da magistratura, cercados pelos devaneios da miseratura. Se homem algum é uma ilha, os magistrados somos os fios de Cloto nos destinos do nosso povo, nas cerdas de Láquesis, onde se fixam as diatribes, dentro da Titânica Themis,como sua filha Átropos, que, não estando em lugar algum, está em todos os recantos. Essa é Justiça, que não nos fez melhores, mas únicos a distribuir o Poder Concreto no bafejo de novos ventos.
E porque todo retrato é a fixação de um tempo subjetivo, numa dimensão pendular do universo e se contrapõe ao tempo relativo einstaniano, com a fragilidade ou a permanência helênica do koinéo - um tempo psicológico, peço venia para encerrar com as palavras de Shakespeare;
"O tempo é muito lento para os que esperam,
muito rápido para os que têm medo,
muito longo para os que lamentam,
muito curto para os que festejam,
mas para os que amam, o tempo é eterno."
Assim, nesse intervalo dos dois orientes, receba nossa saudação por três vezes três e o tríplice e fraternal abraço maçônico.
Brasília 26 de março de 2009.
"O saber a gente aprende com os mestres e com os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes" Cora Coralina.
Invocações.
Aqui reunidos para mais uma efeméride na existência do homenageado. Lécio Resende da Silva, um goiano de Pires do Rio, que foi Juiz nos extremos do antigo Estado de Goiás, adentrou a magistratura do Distrito Federal e Territórios, Presidente de dois Tribunais Federais, Corregedor de Justiça nos mesmos Tribunais e Governador do Distrito Federal, vê colocar sua foto entre os próceres deste Poder.
Vossa Excelência, neste ato singelo, tem a coroação dos louros de uma vitória merecida e não esperada. Surgiu da simplicidade de uma família e, com os próprios pés marchou pelas sendas, que o Grande Arquiteto direcionou. Olhando para o passado é uma linha reta que se aperfeiçoou e alongou, é o registro de uma concretização ímpar.
Coube-me, por sua escolha, fazer um monólogo pela pontualização do instante da fixação/lembrança de sua foto. Transformo, contudo, a cerimônia num diálogo plurissubjetivo, em que serei responsável pela quebra-do-silêncio. Passo a passo caminharemos da Escola Paroquial Sagrado Coração de Jesus, do Colégio São Francisco de Anápolis até a presente data, não me olvidando de sua participação no Congresso da juventude e da família em Belfast-Irlanda do Norte.
Como se observa, o périplo é longo, variado e distante. Daí o leit motiv trazido das mensagens de sua conterrânea Cora Coralina. Parece até que ela é sua fada madrinha, que conhece o seu destino e o comanda com o pequeno bastão da perseverança e da insistência.
Vossa Excelência teve o privilégio de ser educado, orientado e protegido neste mundo e na outra dimensão pela incansável Sister Thomasia - Madre Thomásia, que o escolheu com outros para uma permanente educação. Aquela que não somente ensina, mas convive. Madre Thomásia, segregando-o dentre seu familiares, profetizou que seria um homem de importância neste país. Isto já aconteceu pelos cargos que ocupou, bem como está in fieri até o horizonte eterno em que as coisas do céu são baixadas à Terra e as conquistas da terra são elevadas ao firmamento, como um óbulo ao único Deus.
Seus passos já foram céleres, lentos, demorados e algumas vezes desapareceram de sua meta, lá, porém, estava Madre Thomásia guiando com andar firme o seu caminho e com olhos brilhantes iluminando a dimensão de seu destino.
Já são 39 anos de magistratura, desde a longínqua Joviania-GO até o Conselho Especial deste Tribunal.
Com o cabedal que ostenta, na verdade, não é alguém que somente possui vasto conhecimento da história jurídica do Distrito Federal. Vossa Excelência, mais que isto, é o agente do desenvolvimento e incremento dos fastos desta unidade federativa. Sob seu comando, em diversas passagens e oportunidades houve land marks com identificação da origem- com a sua face. Com efeito, Com a concretização de uma sua idéia, o Tesouro Nacional deixou de ter despesa eleitoral de 28 milhões, o brasileiro com residência no exterior já não precisa fazer viagem de longa distância dentro do país que reside, sobretudo se houver resistência à movimentação interna. A obtenção do documento, que demonstra a obrigação do dever do voto, deixou os longos 3 meses de burocracia para sua consecução e já é obtido instantaneamente ou, no máximo, em 13 dias. Hoje essa agilidade e benesse são igualmente feitas e produzidas em todo o país.
O auto retrato de sua pessoa pode ser pinçado do elemento revelador e do fixador hipossulfito de sódio. Nestes dois líquidos, aquilo que era virtualmente um microcosmo da realização humana, passou para realidade transbordante da pessoa. Vossa Excelência o disse muito bem em março de 2008 na solenidade da entrega das obras do bloco A:
"Em toda parte há homens que arrostam com maiores obstáculos, não para conseguirem alguma coisa, mas porque alguma coisa os obriga a esforçarem-se, a abrirem caminho, a lançarem mão de todos os meios lícitos para chegarem ao seu fim.
Esses é que são os mais dignos, os vitoriosos.
...A realidade se encontra em nós mesmos, integra nossa constituição espiritual... Sonhei desde a infância ser juiz. Nunca aspirei posição mais elevada. Deus decidiu conceder-me postos mais altos."
Este auto retrato assemelha-se ao de Dorian Gray, de Oscar Wilde no final do século 19. Colocado nesta parede de dirigentes, fixa um instante - o da coroação e aperfeiçoamento do SER, no entanto, ao contrário do de Dorian Gray, Vossa Excelência é que rejuvenesce com o passar das eras. Isto porque todo realizador é um insatisfeito, que tendo obtido e entregue o máximo, elege outro objetivo, desbasta-o, debrida seus esporos e alisa sua imagem.
O quotidiano de magistrado revela sempre um prisma cultura da simplicidade do provo e também dos agentes públicos diretamente envolvidos no direito sistêmico. Eis o que ocorreu em seu início de carreira:
"Na comarca de Goiás, próximo à praça central, havia uma árvore muito antiga e frondosa que ameaçava cair.
Os criadores de gado do município não conseguiam mão-de-obra. Os homens disponíveis viviam custeados pelo trabalho das esposas, que eram professoras do ensino fundamental.
No final de cada mês esses homens eram vistos conduzindo as esposas à Coletoria Estadual, onde eram feitos os pagamentos dos vencimentos.
Eles se apropriavam do dinheiro das mulheres e, até a chegada do próximo mês, se reuniam pela manhã à sombra dessa frondosa árvore para apostar em rinhas de galo.
As mulheres, cansadas, pediram providências ao Juiz. Este determinou ao delegado que adotasse as medidas legais cabíveis.
O delegado informou a intenção de prender todos por vadiagem e que possuía solução alternativa.
O Juiz Lécio Resende, reiterou ao Delegado que adotasse o procedimento mais conveniente.
O delegado não pestanejou, mandou cortar a árvore e chamou todos os homens, informando-lhes que, caso continuassem com aqueles hábitos, seriam presos em flagrante por vadiagem.
Agradeceram as esposas, os fazendeiros e toda a sociedade local."
"Ainda no que diz respeito ao início da carreira judicial, V.Ex.a, muito meticuloso, como ainda o é, reuniu seus oficiais de justiça e deu-lhes a instrução de que os processos de réu preso viessem sempre com o instrumento do crime, para não haver perda ou desaparecimento e que eram preferíveis frases sem pontuação, do que com má colocação.
O oficial semi analfabeto trouxe-lhe certa feita um autor de estupro e disse a V.Exa: Memê, taí o abestado covardão que pegou a criança. Num trôci o instrumento do crime, pruquê num sei qual era, purisso trôci também a menina pru sinhoro escoiê o instrumento."
Ainda na mesma longínqua e rural comarca primeira, o mesmo oficial foi reforçar uma penhora.
Na volta relatou o acontecido:
"Memê (Meritíssimo), essença (Excelência), num pudi reforçá nada não, pruquê o abestado fugiu montado na fiança, deixando só uma mesa de comê véia de trêis perna."
V.Exa., questionou a respeito da fiança que não estava em lugar nenhum do processo e o operoso oficial de justiça respondeu, já era véia, mais era de trote muito bão (Fiança era o nome da égua).
A par desse lado hilário é evidente que, como Corregedor/Presidente, conseguiu diversos terrenos para alargar o atendimento do povo, de forma rápida e mais próxima de seus trabalhos e moradias. Adquiriu centenas de computadores, agilizando o andamento processual, instalou a sala de audiência eletrônica. Nunca deixou processo mourejar em seu gabinete.
São obras eloqüentes que falam por si, como se pessoas fossem já na forma adulta.
Cabe a Vossa Excelência as expressões do grandioso Michel Quoist:
"A estrada da tua felicidade não parte das pessoas e das coisas para chegar a ti; parte sempre de ti em direção aos outros."
Vossa Excelência, na espiral do Ascenso do mundo está sempre uma volta acima e pode, a cada instante, reproduzir este manual de conduta.
Veja, Excelência, que as verdades, todas elas, porque criadas, são relativas. Nos achamos livres de ir, vir e permanecer e estamos jungidos ao orbe pela Lei da gravidade. Queremos as alturas da lua e encontramos a lua dos oceanos. Para se chegar a ambas tem-se que colocar em outra dimensão. Como salientava Drumond de Andrade: eu não vi o mar, eu vi a lagoa. De fato as grandes coisas nos sugerem universalismos, as pequenas nos formam especialistas. Ninguém menor do que nossa dimensão corporal, pois é uma pequenez conhecida, sentida e sábia e porque nada temos neste hilemorfismo do depois, chegamos ao helênico: gnôti seautón (conheça-te a ti mesmo), conhecemo-nos e sabemos que nada sabemos. Se somos uma Essência mística de existência do criador, somente temos essa consciência com o reconhecimento cartesiano do penso, logo existo, e aquilo que é secundário e passageiro - a existência, é que nos leva a nós mesmos pela nossa essência. Donde mais importante que ter é ser.
Quando se fez o plano estratégico do bienal governo, V.Exa o disse de forma enfática e grandiloquente:
"Os homens só alcançam os objetivos se ousarem e se forem capazes de sonhar e trabalhar os sonhos."
"O futuro não é o lugar para onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando. E a atividade de criá-lo faz com que mude tanto o criador como seu destino".
São palavras de quem busca o "eu profundo", o novo singular modo de ser. Tudo isto é a sua identidade.
Com a aposição desta fotografia, na prática temos a personalidade em seu latino sentido de per+sonare. Ou seja emite energia para os que no futuro a observarem. São badalos dos sinos da realização; são ecos diacrônicos da construção de um Poder que se auto mantém.
V.Ex.a que já não é o mesmo da foto, pois ela fixou um determinado "in fieri" e poderá meditar:
"Afinal quem sou eu? Que sonhos magníficos sonhei? (mirum somnium somniavi) Qual meu lugar no desígnio do Mistério?
Nesse instante chegará ao seu interior - aquele que está inserido no imenso passado do big bang e que se perde dentro do inefável do Universo.
V.Ex.a verá que diante do princípio da indeterminação de Heisemberg somos uma luz, uma energia quântica condenada a estar só e a ser livre, como o ensina Jean Paul Sartre.
Com essa consciência do dever cumprido e na busca da perfeição começa a rasgar horizontes nas cortinas dos tempos e a criar novos sentidos da vida.
Verá que a felicidade não é um dom, mas uma aquisição; não é direito, mas uma obrigação, pois somente sendo felizes é que podemos transmiti-la aos vizinhos, parentes e amigos. Porque a transmissão é sincera, ela permanece como uma chama tão forte em nós mesmos, como na partilha que nem a divide, nem a esmorece.
Fique V.Ex.a certo de que um homem, com sua têmpera, jamais servirá de modelo de experiência, mas será uma seta a indicar a virgiliana promessa do sic itur ad astra - somente dessa maneira se atingem os astros.
Nesta viagem filósofo-jurídica, colocamos os pés no chão como Drumond novamente nos lembra de que o retrato é apenas uma moldura na parede. Acrescento que essa moldura é um portal que nos mostra e escancara os caminhos árduos da magistratura, cercados pelos devaneios da miseratura. Se homem algum é uma ilha, os magistrados somos os fios de Cloto nos destinos do nosso povo, nas cerdas de Láquesis, onde se fixam as diatribes, dentro da Titânica Themis,como sua filha Átropos, que, não estando em lugar algum, está em todos os recantos. Essa é Justiça, que não nos fez melhores, mas únicos a distribuir o Poder Concreto no bafejo de novos ventos.
E porque todo retrato é a fixação de um tempo subjetivo, numa dimensão pendular do universo e se contrapõe ao tempo relativo einstaniano, com a fragilidade ou a permanência helênica do koinéo - um tempo psicológico, peço venia para encerrar com as palavras de Shakespeare;
"O tempo é muito lento para os que esperam,
muito rápido para os que têm medo,
muito longo para os que lamentam,
muito curto para os que festejam,
mas para os que amam, o tempo é eterno."
Assim, nesse intervalo dos dois orientes, receba nossa saudação por três vezes três e o tríplice e fraternal abraço maçônico.
Brasília 26 de março de 2009.