Des. Romão C. de Oliveira, Presidente do TJDFT - Abertura da exposição do acervo das obras do TJDFT

por ACS — publicado 2020-03-10T13:27:00-03:00

Senhoras e Senhores,

1 – É com inexcedível alegria que vejo o TJDFT colocando seu acervo cultural, no pertinente à arte plástica, à visitação pública. Nossa satisfação é redobrada, quando se sabe que o artista plástico anônimo é o mais esquecido pela elite que ainda tem os olhos fitos no Velho Mundo.

2 – Ninguém ignora que o pintor é o artista solitário, que não pode contar com a colaboração de outrem para expressar sua mensagem. O escritor, o orador, o cantor ou o poeta -  para que seu pensamento atinja o grande público – contam com os veículos de comunicação e, eles próprios se completam. O artista plástico, por mais altruísta que seja, conta apenas com o próprio talento, tendo de experimentar ainda a adversidade da matéria prima utilizada.

3 - Um jovem de Exu – PE foi encontrado na Lapa, na cidade do Rio de Janeiro, cantando tango argentino para os frequentadores daquele logradouro destinado ao entretenimento noturno. Quem mudou o rumo desse jovem foi um estudante de Direito, conhecido por Armando Falcão, que o incentivou a cantar as modinhas de “pé de serra”, bem conhecidas nas escarpas do Araripe. Com a mudança de paradigma, o jovem de Exu tornou-se Rei e imortalizou o poema Asa Branca do cearense, Humberto Cavalcanti Teixeira, canção essa hoje conhecida nas melhores universidades. Esse jovem, já na condição de Rei, dera espírito eloquente ao Poema Triste Partida, do quase anônimo Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré. Outro poeta que muito ganhou com a mudança de paradigma do jovem de Exu foi o médico José Dantas que, entre outros belos poemas, compôs Vozes da Seca, mensagem endereçada ao Chefe da Nação, advertindo-o de que uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão... Como se vê, quando o estudante de Direito, que mais tarde se fez Ministro da Justiça, querendo ouvir as modinhas solfejadas no “pé de serra”, sem saber, estava mudando o rumo da música, libertando o jovem de Exu do tango argentino e dando maior colorido a grandes poemas de insuperáveis poetas e todos receberam a preciosa luminosidade; assim, entre esses artistas veicularam colaborações recíprocas.

4 – O artista plástico, que é solitário, nas mais das vezes, não consegue ser reconhecido ao seu tempo, podendo haver um hiato correspondente a dezenas de anos entre o momento de sua morte e aquele em que sua obra é devidamente valorada, a exemplo de Vincent Willem van Gogh, que ao falecer em 1890, com 37 anos de idade, deixou mais de setecentas telas, no entanto, durante sua vida vendeu apenas uma obra e, mesmo assim, alcançando preço ínfimo. No entanto, em 1990, no centenário da morte de van Gogh, já considerado um dos maiores artistas plásticos do mundo, seus quadros eram arrematados na casa de milhões de dólares. Entre nós, Pedro Américo de Figueiredo e Melo nascido em Areia – PB, teve melhor sorte ainda durante a vida porque a Família Real volveu os olhos sobre o quadro Independência ou Morte; Di Cavalcanti é um caso à parte porque dotado de múltiplos talentos: escritor, caricaturista, cenográfico, militante político etc.

5 – À míngua de espaço para homenagearmos os anônimos que aguardam o seu lugar ao sol, reservo os últimos minutos para aquele que os comunicadores não teriam dúvida em cognominarem de “monstro sagrado” da pinacoteca brasileira. Refiro-me a Cândido Portinari, paulista da região de Ribeirão Preto, nascido em fazenda de café no município de Brodowski; como não teve acesso à escolaridade regular, fez-se autodidata, aprendendo quase tudo com a adversidade; esse artista plástico deixou mais de cinco mil obras de pequeno e grande portes, inclusive, os gigantescos murais Guerra e Paz que ornamentam a sede da ONU; a genialidade de Portinari lhe carreou certos momentos de glória. No entanto, intoxicado com as tintas com que produzia a obra, bem assim o excessivo calor, sempre necessário, veio a falecer em 1962, quando contava apenas 58 anos de idade.

6 - E para que não digam que não falei de flores, máxime porque estamos na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, registro a participação de, pelo menos, duas artistas plásticas brasileiras, Beatriz Milhazes e Tarsila do Amaral, com ampla produção artística, com telas memoráveis.

7 – Utilizo essas breves anotações para prestar merecida homenagem a todos os artistas plásticos, especialmente, àqueles que ainda não ultrapassaram o vale do anonimato.

8 - Finalmente, agradeço à  Primeira Vice-Presidente, Desembargadora Sandra De Santis Mendes de Farias Mello pela feliz iniciativa de expor o acervo de artes plásticas do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios aos jurisdicionados.

Muito obrigado.