Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

Juíza de Direito Gabriela Jardon - Homenagem ao Desembargador George Lopes Leite, pelo seu falecimento

por ACS — publicado 08/04/2021

Nenhuma vida é em vão ou sem sentido. Todas vivem seu curso, fazem seu voo, servem a alguém ou a algo de alguma forma, por menor que tenha sido o seu universo ou apertado o seu horizonte.

Mas parece haver vidas em que menos vão e mais sentido cabem nelas. Estamos aqui, neste momento, pranteando uma delas. A doença e a morte do Des. George veio nos lembrar o que sabíamos sem nenhuma hesitação, mas que convivíamos dando por certo e eterno, como, em verdade, costuma acontecer com as maiores bênçãos do nosso dia-a-dia: a vida grande e importante que o George vivia vizinha às nossas.

Grande não só pelos 70 anos que passou aqui, porque desses, se não se pode dizer que foi uma vida curta, certamente que pediam e muito bem poderiam ter se somado a umas boas décadas a mais. George, pelo o que era e fazia ao mundo, foi embora cedo, ao menos bem mais cedo do que gostaríamos.

Importante não por ser um professor renomado e ter chegado à função de Desembargador. Seus cargos e funções lhe dignificavam, sem dúvida, mais não é exagero nenhum dizer que ele era bastante maior do que todos eles juntos e empilhados.

Des. George foi grande e importante porque foi pessoa com P maiúsculo todos os dias dos meses dos anos de seus 70 anos recém-completados em fevereiro. Foi gente. Foi humano, o que deveria ser o comezinho de toda vida, já que humana na sua ontologia, mas que sabemos não ser. A dureza da vida, material ou subjetiva, forja muito mais comumente pessoas de humanidade minguada, escamoteada, trancada dentro do peito tantas vezes por meia dúzia de vaidades e desejo de insígnias, pela desconfiança dos outros, pelo egoísmo, pelo narcisismo, pela secura da alma.

Des. George certamente que enfrentou suas durezas – nenhum vida escapa delas. Mas cumpriu o grandessíssimo feito de ter conservando a alma fresca, o coração puro. Coração de menino, coração de moleque, como diz a música que, segunda sua neta Anna Beatriz na postagem que fez em sua homenagem em uma rede social, era uma de suas preferidas, Bola de Meia Bola de Gude, de Milton Nascimento, música cuja letra ele inclusive trouxe à baila no seu discurso de posse como Desembargador, 14 anos atrás.

George conseguiu chegar aos 70 anos de idade de olho brilhando, sem que o encantamento pelo trivial, pelo simples, pelo dia-a-dia, viesse a desbotar, estas pequenas-grandes instâncias onde, e só onde, pode mesmo morar alguma possibilidade de felicidade real. Ele sabia disso. Tinha calma numa profissão em que se arranca os cabelos todos os dias, quando não o destino é se tornar uma escarpa de gelo, por proteção, por alheamento. Tinha jeito com todo tipo de pessoa, independente de origem, de condições. Pobre, rico, homem, mulher livres, sem crimes, ou ofensores dos crimes mais graves, regenerados ou irrecuperáveis. Todas eram pessoas e a sua pessoa, essa de que falávamos com o P maiúsculo, tinha o dom de achar a pessoa de cada um sob quaisquer circunstâncias, por mais espessas que fossem. Tinha sempre um bolso para guardar um bilhetinho de algum preso à sua família (que ele daria um jeito de fazer chegar), um elogio pronto a disparar, uma gentileza genuína que lhe escorria nas grandes, mas especialmente nas minúsculas ocasiões, como um encontro no corredor do trabalho ou no restaurante do Tribunal, no meio da semana, no meio do dia.

Des. George foi uma unanimidade. Agora, por ocasião do seu crepúsculo, o que se ouve e lê nesses dias sobre ele não são apenas orações, depoimentos de pessoas assustadas com a morte tão perto ou mesmo com a própria circunstância da pandemia que o levou. Não. Por trás dessas camadas, nas muitas bocas e corações que vêm se abrindo para lhe levantar uma palavra, um pensamento ou uma homenagem, o que se tem escutado, se conseguirmos realmente encostar os ouvidos rente a esse chão da morte que se estendeu sobre nossos pés, são bocas e corações em profunda e verdadeira pena pela perda dessa pessoa venturosa, mas, mais ainda, bocas e corações que tentam se lembrar de tudo, de alguma coisa qualquer, uma frase, um encontro, um gracejo, uma sabedoria que soltou, da sua forma de agir e ser, para incorporar a si algo desse ser que parecia mais sábio e mais desperto do que a maioria de nós.

Mas essa preocupação é desnecessária. Des. George já está em nós. Não é exagero. Com sua presença constante por muitos anos, essa presença simples, inteligente, bem-humorada, gentil, amorosa, que adorava o estudo e a arte, ele tocou milhares de vidas, milhares mesmo, de forma muitas vezes decisiva. Por ele, por causa dele, somos todos, não só sua família, por óbvio, mas alunos, colegas, amigos, servidores, uma multidão, melhores e maiores. Tem vida que pode ser maior e mais importante do que essa que faz de tantas outras maiores e mais importantes? Não tem. Há gente que pode morrer mais tranquilamente que outros. O dever foi mais que cumprido. Na verdade, mais do que o dever foi cumprido. Des. George, escute-nos: você é um desses. Deixou-nos cedo, mas quem diz isso é mais nossa saudade e orfandade. Em termos de produzir mudança, significar, deixar aqui a sua marca e o seu trabalho a serviço da vida, já tinha angariado toda a tranquilidade do mundo para que, caso a morte lhe visitasse, como o visitou, já fosse uma visita totalmente cordial. Como você.

Para terminar, as palavras do próprio Desembargador, voltando ao seu discurso de posse de 14 anos atrás. Disse ele também ao querer finalizar:

Esta, Senhoras e Senhores, a mensagem daquele garoto que um dia foi admoestado pelo irmão mais velho. Desafiado, tomou jeito de gente e veio encontrar seu destino no eldorado de todos os brasileiros. Continua sonhador obstinado, nada obstante uma parte do sonho tenha sido tragada pelos moinhos da vida. Procura ainda o aprendizado a cada dia, mas, ao lado das lições de Canotilho, Boaventura, Manoel Gonçalves, Jaguaribe, Rawls, Dworkin, Habermas, Gadamer, e outros grandes jusfilósofos da contemporaneidade, nunca esqueceu, das leituras da adolescência, a doutrina singela do velho Jonathan Kent, falando ao jovem Clark: - "Meu filho, se Deus lhe concedeu poderes acima do homem normal, use-os sempre para o bem, nunca para o mal. Não se prevaleça de seu poder para dominar e oprimir. Seja sempre bom".

Que Deus concedeu a George poderes acima do homem normal, não temos dúvida. E que ele foi sempre bom, também não.

Dele nos despedimos, na certeza de o carregarmos dentro de nós em alguma medida e, assim, simplesmente não haver despedida possível. Ele segue vivíssimo no exemplo que deu, no fio condutor que nunca deixará de ser para cada juíza e juiz do nosso Tribunal, como a colega Sandra Cristina pontuou na homenagem ontem feita a ele.

Obrigada e obrigado por tudo, Des. George! Que seu coração-moleque já esteja numa hora dessas brincando de bola de gude e bola de meia em algum ensolarado quintal celeste, junto aos seus que já partiram, e na certeza de um reencontro com todos nós que ainda estamos por aqui, mais cedo ou mais tarde.

Nunca te esqueceremos.