Gabinete do Des. George Lopes Leite - homenagem ao magistrado pelo seu falecimento

por ACS — publicado 2021-04-11T11:28:47-03:00
Março de 2021 foi implacável... A última vez que conversamos com o Desembargador George Lopes Leite, carinhosamente chamado por chefe por todos no gabinete, foi justamente no dia Internacional da Mulheres, data na qual fazia sempre questão de parabenizar todas as servidoras e lembrar a natureza ímpar da feminilidade.

Nordestino de fibra, tinha orgulho da origem. Um dos dez filhos de Dedé de Lino, veio de Mossoró/RN para Brasília nos idos de 1972 em busca de uma vida mais digna, do sonho de um país melhor, de uma esperança em forma de cidade, após ser admoestado pelo irmão mais velho, para que criasse vergonha na cara por viver às expensas do pai até os 21 anos de idade, pois assim “não seria nada na vida”. Apesar da rotina extenuante de trabalho, já na Capital da República formou-se em Direito com muito empenho pelo Uniceub, instituição pela qual foi professor de Direito Penal de várias gerações.

Em uma das causas que aceitou trabalhar como Advogado sem nada receber, singularidade de quem tem o coração genuinamente bom, esqueceu os autos numa banca de jornal enquanto se distraía lanchando e lendo as notícias do dia, acreditando que os havia devolvido dentre todos os processos que levara naquela tarde. Com verdadeiro assombro, recebeu dias depois a notícia de que havia um mandado de prisão expedido em seu desfavor, como se quisesse beneficiar o cliente, acusado de homicídio. Os autos foram localizados e a ação penal a que respondeu foi trancada depois de muita luta...

Diante de tamanha arbitrariedade, decidiu estudar para a Magistratura, pois resolvera fazer a diferença. O filósofo Jean-Jacques Rousseau afirmava que “... o homem nasce livre, e por toda parte encontra-se a ferros”, acreditando que a natureza humana é boa, mas que é corrompida pela sociedade, num processo civilizador. Mas o Desembargador George já tinha a essência boa e se tornou ainda melhor diante da injustiça que sofrera. Como Sócrates, acreditava que era melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma.

Em seu discurso de posse como Desembargador, pediu licença para tomar emprestada a poesia de um certo Milton, “cujo nascimento foi uma benção para a música popular brasileira”, e destacou os seguintes dizeres da sua canção predileta:

“... Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração

Toda vez que o adulto balança ele vem para me dar a mão

Há um passado no meu presente, o sol bem quente lá no meu quintal

Toda vez que a bruxa me assombra o menino me dá a mão

Ele fala de coisas bonitas que eu acredito que não deixarão de existir

Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor

Pois não posso, não devo, não quero viver como toda essa gente insiste em viver

Não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal

Bola de meia, bola de gude, o solidário não quer solidão

Toda vez que a tristeza me alcança o menino me dá a mão”.

Com fé infindável no ser humano, muito mais que Direito, ensinou-nos sobre empatia e amor. No último natalício, celebrado em 08 de fevereiro, contou-nos com satisfação que recebera as felicitações de Júlia e de sua mãe. Em mais um voto de vanguarda, havia convencido os pares a permitir o cultivo caseiro de maconha pela genitora da adolescente, portadora de Síndrome de Silver-Russel, para extração de óleo de canabidiol e extrato de tetraidrocanabinol, substâncias então vedadas pela Anvisa, para que fossem amenizadas as dores crônicas e as até noventa convulsões diárias que sofria, propiciando-lhe uma vida mais digna. Hoje, Júlia tem muitos planos e já está na faculdade. A materialização do Direito era o que importava... Sempre recebia advogados e partes e não media esforços para encontrar a melhor solução jurídica ao caso.

Dr. George sempre procurava aplicar a pena mais justa, afirmando com frequência que “todos temos direito a uma segunda chance”, mesmo que seu entendimento ficasse vencido entre os pares, sem nunca perder a galhardia que lhe era peculiar e a postura conciliadora e agradável ao defender seus posicionamentos. Com isso, era muito querido entre todos. Extremamente sensível e humanista, acreditava na regeneração e ressocialização dos condenados.

O gabinete era repleto de quadros pintados por presos, que tinham suas histórias sempre contadas, na crença inequívoca de recuperação. Cada processo era único, assim como o ser humano é... A recomendação era que todos os processos fossem analisados com extrema atenção as particularidades. Não havia prejulgamentos no gabinete, pois as lições diárias nos deram a consciência do desequilíbrio de forças que muitas vezes assola o Direito Penal.

Como não podia ser diferente, também havia um retrato pintado do pai... A família sempre teve posição de destaque na vida do Desembargador George, os pais foram amplamente lembrados no discurso de posse, falava dos filhos com extremo orgulho, os olhos brilhavam quando contava as travessuras dos netinhos, e por diversas vezes elogiou a escrita da neta Ana Beatriz, agora Advogada.

Nunca deixou de nos dar “boa tarde”, mesmo com a rotina corrida. Era exigente, pois “nada era tão bom que não podia ser melhorado”. O Desembargador era muito mais que uma referência, era um amigo leal, conselheiro e mestre, sempre bem-humorado, a quem se podia confiar. Com muita humildade, dizia “Eu sem vocês não sou nada”. Hoje temos a sensação de que não somos nada sem ele.  Sentimos pelos que conviveram pouco com o Desembargador George ou que não o conheceram. Exemplo de mansidão e solidariedade.

Mas ideais não morrem, permanecerão em nossos corações. Os aprendizados nos tornaram mais George, mais humanos, corajosos e sensíveis. E isso nos fará prosseguir... As saudades e o respeito serão eternos, muito obrigado,

Amigos do gabinete.