Portal publica matéria sobre estatística de adoção da VIJ-DF

por ACS — publicado 2015-03-02T19:40:00-03:00

54% das famílias que adotaram no DF em 2014 já tinham filhos, diz tribunal. Outra mudança é que maioria das crianças tinha mais de 2 anos e irmão. Com sete filhos biológicos, psicóloga adotou dois meninos: 'É gratificante'.

O portal G1 publicou neste domingo, dia 1º/3, matéria sobre os dados estatísticos 2014 da Vara da Infância e da Juventude – VIJ/DF que revelam aumento das adoções por famílias que já tinham filhos e de crianças maiores. A notícia traz depoimentos de pais adotivos e do supervisor Walter Gomes, da Seção de Colocação em Família Substituta da VIJ-DF. Leia abaixo a matéria na íntegra.

Mais da metade das famílias que adotaram crianças e adolescentes no Distrito Federal em 2014 já tinha filhos, segundo dados do Tribunal de Justiça. O relatório, finalizado pela Vara da Infância em janeiro, apresenta também outra mudança de perfil, com aumento da faixa etária dos meninos e meninas. Dos 71 garotos e garotas, 39 têm mais de 2 anos e pertencem a grupos de irmãos. Durante décadas, os interessados procuravam recém-nascidos, saudáveis, brancos e sem irmãos.

“O ano de 2014 foi inesquecível para a adoção no Distrito Federal”, afirmou o supervisor da Seção de Colocação em Família Substituta, Walter Gomes de Sousa. “Percebo que os casais que já têm filhos e adotam querem ampliar o número de membros na família. Com o passar do tempo, não há distinção entre filhos adotados e biológicos, pois prevalece o amor nas relações. Esses números vêm descaracterizar o mito de que só adota quem está impossibilitado de ter filhos biológicos.”

A psicóloga Elizangela Roque, de 42 anos, é exemplo dessa situação. Já mãe de cinco crianças, ela adotou dois irmãos, de 7 anos e 10 anos, há três anos. Depois teve mais dois filhos biológicos. Hoje a prole, composta por duas meninas e sete garotos, tem entre 9 meses e 19 anos. A família vive no Guará.

A ideia surgiu depois de conhecer um colega de um dos filhos. “A escola deu uma bolsa para o Matheus [que morava em um abrigo], e ele e o Miguel ficaram muito amigos. Começamos a nos aproximar dele, ficamos encantados. Então descobrimos que ele morava em um abrigo do lado. Nos aproximamos mais, e meu marido queria saber mais dele. Aí fomos lá.”

Em uma visita ao local, Elizangela descobriu que o menino tinha um irmão. Ela conta que decidiu então conquistar também Marcos e assim dar início ao processo de adoção. A novidade, diz, foi aceita com naturalidade em casa.

“Foi muito tranquilo, porque eles já sabiam quem era o Matheus. Era o grande amigo da escola que virou irmão”, lembra a psicóloga. “É muito gratificante adotar. De fato é bem trabalhoso [ter muitos filhos]. A gente tem uma vida muito organizada, ritmada. Eu trabalho na mesma hora em que estão na escola, então passamos a manhã juntos. Eles têm horário de estudo, de brincar.”

Para o supervisor da Vara da Infância, o aumento do número de adoções tardias está relacionado à promoção de cursos de preparação psicossocial e jurídica oferecidos pela vara. “Por meio dele, as famílias são sensibilizadas, preparadas e empoderadas para participar de um audacioso e afetivo projeto de adoção, no qual os interesses particulares são postos em segundo plano, ao passo que os direitos, necessidades e carências de crianças e adolescentes abandonados são priorizados”, disse.

O servidor público Marcos Oliveira, de 49 anos, também adotou uma criança maior em 2012. Na época, Felipe tinha 3 anos e 4 meses.

“Minha esposa já tinha sido casada e tinha três filhos do primeiro casamento. Ela não podia mais engravidar [por problemas de saúde] e surgiu a ideia de adotar uma criança”, conta.

Segundo ele, o menino virou o “xodó” das irmãs, que têm 22, 26 e 28 anos. “Toda a rotina da casa muda. É uma reviravolta na vida da gente. Você tem tudo certinho, tudo determinado, e chega uma criança e você tem que repensar tudo o que você faz. Mas, sim, é gostoso. O mais recompensador é o carinho que a gente recebe de volta. Isso é fantástico, a relação pai e filho é uma coisa mágica. Preenche a gente, renova.”

Perfil dos adotados e dos adotantesO documento do tribunal mostra que 52,97% das crianças e adolescentes acompanhadas no ano passado são mulheres. Além disso, 54,79% são morenas-claras, 8,22% são negras e 16,44% são brancas.

Outro dado curioso é que 52,05% dos meninos e meninas tinham até 12 meses quando foram para uma instituição de acolhimento. A maioria (82,65%) é de crianças saudáveis, enquanto 15,98% apresentam problema de saúde curável e 1,37% tem alguma deficiência. Nenhuma possui doença incurável.

Já em relação aos casais interessados, além de que 54% deles já possuíam filhos, o estudo mostrou que apenas 26% tinham problemas de infertilidade. Dos novos pais, mais da metade (51%) possui ensino superior completo. Em 47% dos casos, eles são morenos-claros e 22% moram na Asa Sul e Norte. A maioria (78,64%) é casada ou vive em união estável, tem entre 41 e 60 anos (64%).

A psicóloga Elizangela Roque afirma que o processo não é fácil, mas vale a pena. “O mais velho sentiu um pouco mais, desafiava nossos limites. Isso já é natural da criança, mesmo as que têm os pais, mas as que não têm as referências acabam ficando sem horário de dormir, de escovar os dentes, ver TV. Isso precisou ser reorganizado."

"Não foi simples porque eles não precisavam [seguir essas regras] disso antes. Mas foi com cuidado, com amor mesmo, dando limites e amor, dando a presença familiar. Essa outra realidade que não existia. Nunca tive dúvidas de que daria certo. É como em um casamento. É para sempre. Desde o início eu sabia que seria para sempre”, completou.