“O início da vida muda toda a história”, alertam pediatras em seminário da CIJ-DF
Desde o ambiente intrauterino e durante a primeira infância, fatores como o olhar atento, o afeto, o acesso à saúde, educação boa alimentação desempenham papel fundamental para o crescimento e o desenvolvimento das crianças e para a vida adulta. A constatação ilustrou as palestras dos médicos pediatras no desfecho do evento “Marco Legal da Primeira Infância – Criança em Primeiro Plano”, promovido pela Coordenadoria da Infância e da juventude do DF – CIJ/DF, neste dia 26/10. Ocorrido no auditório da Vara da Infância e da Juventude, o seminário integra o rol de atividades da I Semana do Bebê, organizada pela Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude do DF, em parceria com o Unicef e parceiros, como a CIJ/DF.
Stress crônico afeta desenvolvimento infantil
O médico pediatra Dioclécio Campos Júnior ministrou a palestra “O Estresse Crônico nos Primeiros Anos de Vida”. Ele recapitulou a história da relação dos adultos com suas crianças, marcada pelo infanticídio frequente nos primórdios, pelo abandono de filhos como fator natural na sociedade até o século XIII, pela relação intrusiva de caráter disciplinador até o século XVIII. Por fim, o palestrante relacionou as dificuldades e os problemas que permeiam esta relação na atualidade, como a decadência do contato pessoal e social entre as famílias e amigos e a falta de hábito das brincadeiras entre pais e filhos.
Dioclécio explicou a importância da influência do meio ambiente para o crescimento e o desenvolvimento da criança. “Não basta carregar um tipo de DNA, é preciso que os genes contidos nele possam se expressar e formar o fenótipo, característica do indivíduo. Para que isso aconteça, o meio ambiente é decisivo. Sem interação e estímulos adequados, o DNA fica do mesmo jeito, sem expressar o gene que contém”.
Ele citou que eventos precoces, adversos, traumáticos, físicos ou psíquicos que afetam a criança na primeira infância levam à reação normal do chamado “stress agudo”, responsável por produzir substâncias em níveis elevados, a exemplo do cortisol, como uma reação natural do organismo. Entretanto, o médico faz um alerta para o “stress crônico”, quando as ocorrências são de longa duração e as substâncias produzidas são mantidas em altos níveis permanentes, tornando-se tóxicas ao bebê. A consequência são doenças e prejuízos na formação do cérebro infantil e na densidade das diversas conexões, podendo influenciar negativamente no desenvolvimento cognitivo, motor e social do indivíduo.
O pediatra citou o exemplo das gestantes e mães que vivem em países onde há guerras, assim como a pobreza e outras situações geradoras de stress contínuo. “É necessária a prevenção do stress ainda na gestação para que o feto tenha o direito a um ambiente intrauterino seguro, estimulante e equilibrado, pois é justamente nessa fase que o cérebro está se formando”, ressalta.
Dioclécio apresentou, ainda, resultados de experimentos científicos demonstrando que a ausência de afeto materno pode desencadear lesões importantes na formação cerebral do bebê e propiciar alterações no seu crescimento e desenvolvimento. Segundo o trabalho apresentado, a falta de afeto é transmitida de geração em geração, não como uma característica genética, mas como um fator comportamental repetitivo.
Primeiro ano de vida: explosão de coisas novas
Na última palestra “A promoção do Crescimento e Desenvolvimento na Infância”, a médica pediatra Natália Vargas Gonçalves afirmou que os termos crescimento e desenvolvimento estão interligados, mas são distintos. O primeiro se relaciona com o aspecto físico e a quantidade de células do ser humano. O segundo diz respeito às suas condições motoras e à capacidade de realizar feitos cada vez mais complexos. “O primeiro ano de vida da criança é uma explosão de coisas novas”, disse a pediatra ao mencionar os movimentos, descobertas e aprendizados logo no início da vida.
Ela esclareceu que o crescimento é um dos melhores indicadores de saúde e de simples aferição por instrumentos básicos. Com balança e fita métrica, é possível aferir o peso, a altura e o perímetro encefálico do bebê. “Um bebê, em condições normais, triplica o peso e aumenta sua estatura em aproximadamente 25 cm em um ano. As alterações nas medições e pesagem traz uma grande resposta para pediatra intervir precocemente”, disse Natália ao salientar que o baixo peso pode expor a criança a doenças até a fase adulta. A médica alerta que o zelo com o peso deve existir desde os primeiros meses de gestação, quando se requer cuidado com a ingestão de bebidas alcóolicas, fumo, medicamentos e pressão arterial elevada.
“A herança genética é importante até certo ponto”, disse a médica pediatra ao relacioná-la como fator intrínseco ao crescimento e desenvolvimento do bebê. “Se a criança não recebe do ambiente o estímulo, a alimentação, os cuidados e o afeto adequados, ela não atinge o seu potencial genético esperado. A influência que o meio ambiente exerce é grande. É preciso questionar como é o ambiente em que a família vive”.
Entre os fatores extrínsecos diretamente relacionados ao crescimento e o desenvolvimento da criança, Natália atentou para a escolaridade da família, que influencia no grau de compreensão quanto aos cuidados da criança, possibilitando a atuação precoce do profissional de saúde. A questão da divisão dos cômodos dentro de uma casa para evitar contágio de doenças e preservar a privacidade da criança também foi ressaltada pela pediatra. Natália enumerou outros fatores externos: renda per capita, acompanhamento pré-natal, obediência ao calendário de vacinação, adequada estimulação psicossocial, saneamento básico, condições de higiene, coabitação com o pai da criança, prevenção de gravidez precoce, aleitamento materno exclusivo até seis meses de idade.