Presidente do TJDFT tece homenagem à Brumadinho em texto poético-filosófico

por ACS — publicado 2019-02-05T15:25:00-03:00

O poema Novo brado da Terra, de autoria do Presidente do TJDFT, desembargador Romão C. Oliveira, é um texto que retrata a dor de testemunhar tantas tragédias que alcançam a Terra, assim como a que se abateu sobre o município de Brumadinho - MG, após o rompimento de uma barragem de rejeitos, no último dia 30/01/19.

Dono de grande lirismo, sensibilidade e espiritualidade, o magistrado rememora outros "descasos" ambientais em nome da ganância, da falta de aprendizado e de ponderação. O texto também foi publicado no site de notícias Metrópoles, nessa terça-feira, 5/2. Confira!

 

NOVO BRADO DA TERRA [1]

 

À Grande Alma do universo

Rendo infinitas graças,

Eis que nada m’enlaça,

Nem mesmo chão adverso.

Há mais de setenta anos

Aqui fui ejetado,

Careca, desnudo, enrugado,

Desengonçado e sem plano,

Como os demais

Viventes animais.

Aqui como selvagem estou,

Parecendo levado da breca,

Sem usar arco nem flecha,

Apenas preservando ipês

E bambus, como vês.

 

À Grande Alma graças dou,

Vendo que no meu tugúrio,

Sem bazófia, sem perjúrio,

Sempre reinou

Simplicidade e alegria.

Ali não se conhecia

Choro, murmúrio

Ou a expressão

“É com profundo pesar ...”.

Portanto, é do meu dever

À Grande Alma agradecer

Por me poupar

Da condição

De testemunha ocular

Dos tsunamis, calamidades

E inomináveis sofrimentos,

Embora, por lealdade,

Com o meu consentimento,

Há três anos tenha escutado

Da Terra o soluço,

Clangor, choro ou discurso

Que deixou meu espírito

Plangente, esmagado,

Bisonho, acabrunhado,

Em compasso analítico,

Mas, tristonho e sem ritmo;

A Terra, chorosa, lastimava

Que tivera veias cortadas,

Fora violentada.

Fizeram desaparecer

Parte da flora e da fauna

E, o Rio Doce morrer.

Mariana virou rebotalho

De guerra.

Era o lamúria da Terra.

E quase tudo acabou,

A esperança murchou,

Ou desapareceu.

E lição nenhuma ficou.

A fé voltou;

Outra esperança veio,

Mas não vingou.

Agora o lamaçal,

Em fúria colossal,

Engoliu Brumadinho.

Mais um desencanto,

Outro monstruoso espanto,

Sem alma e mesquinho.

E a Terra reclama:

A mesma ganância,

A mesma imprudência,

A mesma leniência,

A mesma tolerância,

A mesma insânia,

A mesma infâmia,

A mesma injúria,

A mesma inclemência,

A mesma arrogância,

A mesma ignorância,

A mesma indecência

Ou a mesma demência?

Não! O ilícito foi mais

Que decuplicado!

E, muito mais sofisticado.

A indignidade

Veio montada em dragão,

Aniquilando a água e o pão,

Sobejando insanidade.

Mortos e desparecidos,

Mais de trezentos.

Nada mudou, tudo cruento.

Solo improdutivo,

Esterilidade sem motivo

De centenas de hectares!

Esse é o novo brado,

Clamor já desalentado,

Da Terra correndo

Ou navegando pelos ares.

Finalmente, devo louvar

À Grande Alma,

Que, afastando a crítica

E orientando a calma

Como arte de calcular,

Permitiu-nos amealhar

O conhecimento santo

De que em qualquer lugar

Em qualquer ponto,

Em qualquer recinto,

 “Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo”[2].

Outrora, Carlos lançava seu olhar

Firme e jucundo

Sobre as águas cristalinas

Escorrendo no rumo do mar,

E, dançava como um Cambeba,

E louvando o Rio Doce ou o Paraopeba

E solfejava que Minas não são apenas as minas.

As Alterosas são as suas montanhas e suas águas.

Hoje, com olhar choroso

Sobre o lamaçal imundo,

O itabiritense onde estará

Verberando que o Rio é Doce

E a Vale é amarga?[3]

Não podemos apenas chorar baixinho

Ante o sofrimento que se alastrou sobre Brumadinho

E contaminou o Rio Paraopeba

E que a tudo agride e a todos aflige ou acerba. 

 É do nosso dever liberar o grito

Que nos sufoca o peito,

Recolhendo o soluço da Terra,

Que chora, esperneia e berra.

Devemos consolá-la de outro jeito,

Permitindo que o vento possa levar

A nossa mensagem,

Veiculando força e coragem

A favor dos aflitos,

Enfileirando-nos ao lado dos anônimos ou dos ilustrados

Como o nonagenário taubateano[4]

Que emprestou sonoridade e a força dos arcanos

A texto de autoria desconhecida,

Verbalizando-o impregnado de beleza e vida.

Com a palavra quem sabe cantar:

 

Minas não tem mar,

Mas fizeram dois mares de lama nas minas.

Cadê minha casa que estava aqui?

Cadê meu boi, meu cavalo?

Cadê meu cachorro?

Cadê meu pé de mamão?

Meu carrinho de mão?

Cadê meu pé de limão?

Cadê meus livros?

Cadê meu arroz, feijão?

Cadê meu colchão?

Cadê meu pai, minha mãe, meus irmãos?

A lama levou...

A lama levou minha vida

Meus sonhos,

Meu porto seguro,

Meu chão.

Não foi a lama não,

Foi o homem que fez a lama, que jogou Mariana e Brumadinho no chão.

Tingiu de marrom as águas do meu Rio Doce,

Coloriu de terra meu Paraopeba,

Vai tingir meu Velho Chico.

Vai calar a voz dos passarinhos,

Matar os peixes,

Que será de mim?

Quem devolverá tudo que levaram de mim?

 

A Grande Alma nos orienta no rumo do comedimento

Da crítica, da expressão do pensamento,

Mas nos alerta que o silêncio poderá ser um medonho torvelinho

Vil, indecente e daninho,

Não servindo para a conquista do direito de ir e vir,

Examinar, ver e ouvir,

Ou para a indicação de novos caminhos.

 

 

Desembargador Romão C. Oliveira

Presidente do TJDFT


[1] O Soluço da Terra foi publicado in Enigmas Entre Cactos Anantos E Lírios Do Campo, págs. 126/127, do mesmo autor

[2]  Aldous Huxley, in Admirável Mundo Novo

[3]  Carlos Drummond de Andrade, in Lira Itabirana

[4]  Jornalista Cid Moreira.